‘Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada’, diz Marcelo Duarte

21 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Duarte é jornalista, escritor e autor da famosa série de livros ‘O Guia dos Curiosos’. Duarte já trabalhou em diversos veículos e desde 1999 mantém sua editora, a Panda Books, um blog, entre outras atividades em meios de comunicação. Ele foi nosso décimo oitavo entrevistado.

Marcelo Duarte

*reprodução

“Demos uma pesquisada no mercado e achamos que somos a primeira editora que faz releases eletrônicos e entrevistas com autores. Nós fizemos um canal, dentro do nosso site, com trailers animados dos nossos livros, fazemos entrevistas com nossos autores. Também estamos no Twitter“, disse em entrevista por telefone.

“Hoje, as livrarias virtuais são importantes no país porque há pouquíssimas lojas físicas. É um problema do Brasil que a internet resolveu. Qualquer pessoa pode comprar um livro pela loja virtual”.

“A gente já descobriu autores por internet, já publicamos livros de blogueiros, temos hoje uma facilidade para convidar pessoas para divulgar os livros. Os novos talentos tinham mais dificuldade para encontrar uma editora que têm hoje. Hoje um blog bom, comentado, rapidamente chega aos ouvidos de uma editora. Então, neste ponto acho que foi muito benéfico para os dois lados: se consegue achar gente boa e o cara consegue achar a editora também“.

A primeira grande dificuldade é fazer o primeiro livro. É fazer um trabalho bom, de qualidade para conseguir lançar. Porque daí, se o trabalho é bom mesmo, ele aparece, o autor tem grande possibilidade de fazer carreira. É muita gente acha que tem uma ideia genial ou alguma coisa maravilhosa porque perguntou para o amigo, para o parente, às vezes não tem uma avaliação profissional. Então, quando pega uma editora, uma avaliação profissional, comercial tem gente que fica muito chateado e a gente é muito sincero. Tem que se pensar como negócio, às vezes a gente sabe que o livro é realmente bom, mas comercialmente não tem grande apelo“.

“Muitos que fazem blog dizem: ‘tive tantos acessos, então meu livro vai vender tudo isso’. Não é verdade, às vezes atrapalha. Se a pessoa tem todo o conteúdo à disposição na internet, tem um público cativo, por que as pessoas comprariam para ler as mesmas coisas? A gente tem livro, da Tati Bernardi que é blogueira de sucesso, mas quando fechamos com ela, nós pedimos textos inéditos”.

“Não sei, acho que é uma coisa muito distante ainda [a pirataria atingir os livros] se as pessoas vão ficar baixando livros e lendo na tela. Acho que se esse perigo tiver próximo, vão criar mecanismos para tentar evitá-lo porque isso seria o fim da indústria cultural. Não faz sentido para um escritor fazer um livro, gastar o tempo dele e não ganhar nada com isso. Seria do fim da indústria cultural“.

“Vai ter uma geração que vai se acostumar mais facilmente a esses leitores digitais e vai poder baixar livros para ler naqueles aparelhos, não digo que não. É uma nova forma de instituição, não é o fim da editora. É mais uma forma de distribuição”.

“[a cultura vem sendo democratizada?] Acho que ainda não. Isso é papo para pirata. Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada. Então vai democratizar distribuindo, mas os shows custam R$ 200? Isso não é democratizar, é se apropriar de alguma coisa que não te pertence. Eu acho que é só furto”.

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‘Não ver a internet como uma grande aliada seria um erro para qualquer um’, diz Carol Bensimon

16 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Carol Bensimon deixou a carreira de publicitária para ser escritora. Ela começou contribuindo com revistas literárias, um fanzine eletrônico e mantendo um blog. Carol já publicou dois livros: ‘Pó de Parede’ (Não Editora) e ‘Sinuca embaixo d’água’ (Companhia das Letras) e pode ser acompanhada por seu site e Twitter. Carol foi nossa décima sétima entrevistada.

Carol Bensimon

* foto de www.insanus.org

O meu trabalho nasceu na internet. Quero dizer, quando comecei a escrever, o melhor método de divulgação era mesmo pela rede. Comecei com fanzine por mail, tive blog desde cedo, escrevi para revistas literárias virtuais… essas são, na maioria das vezes, as únicas opções de um escritor iniciante.
Agora que pude passar finalmente ao suporte “livro”, que é, no fim das contas, o objetivo de todo mundo, a internet participa de uma maneira importante na divulgação das minhas obras, e no retorno que tenho dos leitores, seja porque escrevem em seus blogs comentários sobre os livros, seja porque colocam algo a respeito no twitter, seja porque me escrevem emails”, disse Carol em entrevista também feita por email.

“[as mudanças pelas quais a indústria literária vem passando são positivas ou negativas?] Positivas, é claro, ainda que a relação novas tecnologias e indústria do livro seja ainda meio tímida. Quanto ao poder e liberdade do escritor em relação às editoras, bem, não sei se é possível afirmar que haja mudança nesse sentido (até porque eu seria pretensiosa demais se fingisse saber exatamente como se passava anos atrás, ou décadas atrás). O que concordo, isso sim, é que o escritor de hoje participa mais ativamente de tudo que diz respeito ao seu livro. Não deixa mais simplesmente na mão de editora. Mas é claro que, no fim das contas, isso vai de cada um, da personalidade de cada escritor”.

“Não há um caminho único para todos. De qualquer modo, não ver a internet como uma grande aliada seria um erro para qualquer um. Quanto ao fã, sim, há um contato regular com alguns, e muitos retornos de gente que leu meus livros e que quer comentar, ou simplesmente dizer para mim o quanto aquela leitura foi importante. Isso é ótimo, é maravilhoso“.

“Não gosto muito de fazer previsões, mas acho que o livro, como objeto, ainda tem muito tempo de vida. A maioria das pessoas ainda tem uma resistência muito grande a ler em uma tela (sou uma delas). De qualquer forma, os direitos autorais não costumam ser a grande e única fonte de renda de um escritor, ao menos não no Brasil. Não consigo pensar nem em meia dúzia que podem se dar ao luxo de viver de direito autoral“.

“Sem dúvida. O desafio agora é lidar com tanta informação. Mês passado, em São Paulo, vi uma série de telas instaladas em elevadores de prédios comerciais e hotéis, dando as notícias do dia, as cotações cambiais e etc. Achei aquilo o perfeito reflexo do nosso tempo. Me dá medo. Será que não podemos passar 10 segundos sem receber nenhum tipo de informação?

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‘Os efeitos das mudanças na indústria cultural a curto prazo são superestimados e a longo prazo são subestimados’, diz Tiago Dória

15 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Tiago Dória é blogueiro e jornalista especializado em assuntos relacionados a tecnologia, cultura e mídia. Desde 2003, mantém um blog, que hoje está hospedado no portal IG. Atualmente, Dória também é integrante do júri do Concurso de Jornalismo da CNN, colunista do Notícias MTV, e pode ser acompanhado pelo Twitter e Vimeo. O jornalista foi nosso décimo sexto entrevistado.

Tiago Dória

“[as mudanças que as indústrias culturais vêm passando são positivas ou negativas?] Depende do ponto de vista. Se você for dono de uma tradicional gravadora, é bem provável que sejam negativas. Se os efeitos serão positivos ou negativos, saberemos somente daqui a 10, 20 anos. Contudo, acredito que o mais importante é ter noção de que os efeitos dessas mudanças a curto prazo são superestimados e a longo prazo são subestimados, sejam eles positivos ou não. Os efeitos a longo prazo dessas mudanças serão bem mais poderosos, pois podem envolver mudanças de percepção em relação a tempo, espaço e comportamento. Vide a energia elétrica. Somente hoje temos noção das mudanças comportamentais que ela provocou. Mudanças a longo prazo que, em sua época, foram subestimadas por pensadores e especialistas”, disse em entrevista por email.

“[qual transformação mais marcante promovida pela era digital na cultura?] Primeira coisa é o barateamento crescente dos custos de produção, armazenamento e processamento dessas mídias. A partir disso vêm diversas transformações. A mais marcante tem sido a chamada era do desmanche, em que os pacotes de conteúdo estão se fragmentando. Um artista não lança mais CDs, mas músicas avulsas, a produção e a própria concepção artística ficam mais atomizadas. Sem contar, o surgimento de novas narrativas, como a transmídia e os newsgames”.

“[analisando o cenário atual, como um artista hoje deve planejar sua carreira]? Acredito que a primeira coisa que ele precisa ter em mente é que está entrando num cenário hipercompetitivo, que já era competitivo, mas se tornou hiper. A digitalização e a posterior distribuição de conteúdo com a internet possibilitaram que mais pessoas publiquem conteúdo e disputem a atenção, o que fez o mercado ficar mais competitivo. Segunda coisa, é aprender a ouvir. Hoje os canais de feedback são bem mais variados e instantâneos. Um artista iniciante, antes de tudo, tem que aprender a ouvir“.

“[como artistas já estabelecidos podem tirar proveito das novas tecnologias? Paulo Coelho e Radiohead são exemplos ou exceções?] O mesmo caso dos novatos. Ter um canal novo de distribuição e uma ferramenta para monitorar a recepção de sua produção. Não acredito que o Radiohead e o Paulo Coelho sejam exceções. Disponibilizar o seu trabalho de graça na web vem se tornando um caminho cada vez mais comum. O trabalho, no caso livros e músicas (gratuitos), servem de isca para vender outros produtos (pagos) do artista, como palestras, shows, merchandising, participação em programas etc. O que tenho como ressalva é em relação ao volume. Artistas menores e menos conhecidos não terão o mesmo volume de downloads de um Radiohead e ou Paulo Coelho. Esses artistas chegaram onde estão apoiados em outro tipo de indústria, mais de massa“.

A atitude de duas pessoas trocarem arquivos na internet não é pirataria, não existe interesse direto econômico. A intenção é trocar conteúdo, conhecimento. Algo que existe desde que o homem é homem. Para mim, pirataria pode ser considerada aquele cara que vende CDs piratas em uma barraca na rua. No primeiro caso, ninguém perde, talvez todos ganhem. No segundo caso, acredito que todos perdem. O problema da pessoa que vende CDs piratas é que o interesse dele não é troca de conhecimento, mas puramente econômico, ganhar dinheiro de forma fácil. Sem contar que junto com a venda de CDs piratas em camelôs vem diversos outros crimes. Até o CD chegar ao camelô, existe toda uma cadeia de corrupção. Enfim, existe uma distância bem grande entre um entusiasta que disponibiliza seus discos favoritos em um blog e um camelô que vende CDs piratas”.

“[o acesso a produtos culturais voltará a ser majoritariamente pago um dia?] Majoritariamente, eu acredito que não. Mas produtos pagos sempre vão sentir, até por que os modelos gratuitos que conhecemos até hoje não dispensam a contrapartida do pago. Por exemplo, você não ganha dinheiro com a venda de CDs, mas ganha com shows, que não deixam de ser um produto cultural”.

“Acredito que o download já seja uma fonte de renda estabelecida para parte da indústria, vide as vendas de música na loja iTunes. Mas é um tipo de fonte que não é capaz de suprir a renda que a venda de discos proporcionava. Hoje a indústria tem que diversificar mais ainda os seus modelos de renda, trabalhar com várias fontes ao mesmo tempo. E ter noção de que ela não vende CDs ou DVDs, mas experiência musical e visual. Acredito que o streaming seja uma alternativa para a indústria, pois ela pode ter mais controle sobre como o seu conteúdo é distribuído. Mas a alternativa mais vantajosa para a indústria combater a “pirataria” ainda é lutar com as mesmas armas, fornecer o conteúdo de graça na rede com uma interface amigável e a mesma ou uma maior facilidade em relação aos ‘sites piratas’ “.

“[acredita que com todas as mudanças provocadas pelo digital estamos de alguma forma vivendo uma ‘democratização’ da cultura?] “Democratização” é uma palavra meio difícil e que dá margens a muitas interpretações. Acredito que temos mais portas abertas. Mas a partir disso, considerar que todas as pessoas vão ter o mesmo espaço e atenção é um pouco romântico e utópico. A democracia pura não funciona, não é à toa que existe uma meritocracia na web e em seus principais expoentes – wikipedia, twitter, blogs etc. Sem contar que não podemos esquecer que o conteúdo é abundante, mas o bom senso e o talento ainda são duas coisas escassas“.

* foto de flickr.com/helenan

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‘Para mim e para uma geração inteira, a internet é a possibilidade de existir no mercado’, diz O Teatro Mágico

14 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Fundado em 2003, O Teatro Mágico é um conjunto independente até hoje: nunca assinou com gravadora e se tornou conhecido pela rede. O grupo de Osasco já lançou dois CDs e um DVD, produzidos pela própria banda, e vendeu cerca de 85 mil cópias (os álbuns são sempre vendidos a preços entre R$ 5 e R$ 15). O Teatro disponibiliza suas músicas (de graça) no site da Trama Virtual, mantém um site que tem uma loja com camisetas e itens para os fãs, além de um perfil no MySpace, no Twiiter e no YouTube. A trupe, que têm acrobatas, palhaços, e claro, músicos, foi nossa décima quinta entrevistada.

O Teatro Mágico | Parque da Uva

*foto de flickr.com/alexandrechang

Para mim e para uma geração inteira de músicos, atores, artistas plásticos, produtores culturais a internet é a possibilidade de a gente existir no mercado. Até então, a gente precisava do bom humor de alguém de uma rádio, da televisão para colocar você alguns minutos no meio de uma programação furada. Na verdade, a internet é uma maneira democrática de tornar acessível os bens culturais a todas as pessoas e isso só traz benefícios para quem é músico a alcançar outros patamares, outro público e muitas vezes a gente jamais conseguiria”, disse Fernando Anitelli em entrevista por telefone.

O ser humano é assim, ele compartilha coisas que ele acha interessante, conceitos novos, isso é natural. Agora querem criminalizar esse hábito, isso não faz nenhum sentido, isso é incoerente. Então, para muitos autores novos a internet passou a ser um campo onde você pode minimamente gravar as idéias do seu trabalho, pode montar seu blog, pode ter sua biblioteca de fotos, de vídeos, tudo isso de maneira gratuita. Hoje, o artista tem que aprender a ser o gestor da sua própria obra, tem que parar com esta coisa de que a gravadora vai aparecer com um sapatinho de cristal e vai colocar o cara em um programa dominical para fazer sucesso. Isso não existe. O artista tem que trabalhar diariamente com seu público para fazer um trabalho com bom conteúdo, para ter o que colocar, o que falar, o que debater“.

“A gente está encabeçando um movimento de MPB, que é um movimento de Música Para Baixar e que propõe uma flexibilização na questão dos direitos autorais, mas o autor não perde o direito autoral dele. A gente tem que brigar para que ninguém seja taxado para ouvir uma música, inclusive eu sou taxado para tocar a minha música. Porque hoje, o ECAD multa O Teatro Mágico se não avisarmos com 15 dias ou 1 mês de antecedência onde vamos vai estar e quais músicas vamos tocar. Então, se o público pede um bis de uma música que eu não classifiquei, se eu tocar estou cometendo um crime. Quer dizer, um crime comigo mesmo porque eu estou tocando minha própria música. Isso é um absurdo, uma postura equivocada das instituições que se traduzem como defensoras dos músicos e da produção cultural no país. A gente quer ter a chance de debater e formar e informar novos consumidores da música, novos produtores de cultura, é isso”.

“Eu já fiz parte de uma gravadora, há uns 10 anos e caí no conto do vigário porque disseram que eu poderia gravar meu material e minha música tocaria nas rádios, o que não era aquilo. Quando a gente estava gravando a oitava música, o dono da gravadora veio e falou: ‘grava tudo agora em formato de forró, que a moda é essa’. Eles estavam preocupados com o dinheiro, só isso. Enquanto no final da ponta tinha alguém preocupado em conceber uma música, uma experimentação traduzidas com poesias, arranjos e musicalidade. Então, hoje o músico pode ter muito mais liberdade no seu trabalho, muito mais autonomia na concepção das suas coisas, na divulgação, ele é capaz de conhecer seu público, criar comunidades para isso”.

Quem cuida do artista é o próprio público. O maior tesouro do artista é o público. Nos dias atuais, como sempre deveria ter sido, o artista tem que ficar frente a frente com o público. Tem que conversar e fazer o trabalho de formiguinha. Até hoje quando O Teatro Mágico vai a alguma cidade, a gente conversa com uma rádioweb, vai na rádio de faculdade, fala com fanzine, com comunidade local, com a Globo, com o SBT. A gente também não pode deixar de se articular nos meios, nas mídias já convencionais. Até porque são concessões que o estado fornece, ou seja, de uma certa maneira isso tudo já é nosso e deveria ser trabalhado para o público, mas não é isso que acontece”.

“[a troca de arquivos não é pirataria] O fã não é pirata. A música é livre, não é caridade, não é doação, é acesso aos bens culturais. A pirataria é pegar o seu trabalho e revender por um preço menor e aí a sacanagem começa. O Teatro Mágico tem sua música livre na internet, mas vende CD por R$ 5 (com um encarte melhorado por R$ 10) e o DVD por R$ 15. E a gente tem a prova que as pessoas baixam de graça na internet e quando vão no show compram o material, eles sabem que o músico precisa daquilo. Além do que, aquilo não está sendo empurrado goela abaixo para ele. Fã é o divulgador, o co-produtor que vai sempre nos ajudar num momento difícil. É o público que vai dar sobrevida para o artista. A gente tem que valorizar justamente essa ponta da cadeia produtiva e não a gravadora que tem um monte de dinheiro e está interessada em fazer mais dinheiro”.

“A música não pode ser só um produto, ela é um presente de celebração, ela é algo muito mais mágico e imaterial que estão imaginando. Então, tratar a música como um pedaço de cadeira, que é um objeto que você usa, gasta e aquilo morre, está equivocado porque quanto mais se ouve a música, mais ela se torna famosa. O cara que trabalhava fazendo o marketing do nazismo disse que uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade. Num paralelo com a música, uma música ruim tocada mil vezes se torna um sucesso. Você acaba acreditando que o que tem de cultura no nosso país é isso que estão mostrando. Então a gente tem que parar com essa comodidade de achar que o que é colocado para a gente é o que nos resta, o que nos sobra, porque não é isso”.

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‘A maioria das práticas de hoje coloca as pessoas na ilegalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria’, diz André Lemos

5 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Lemos é PhD em sociologia e professor da Universidade Federal da Bahia. É pesquisador da área e autor dos livros ‘Olhares sobre a Cibercultura’, ‘Cibercultura’, entre outros títulos. Lemos mantém um site e também uma conta no Twitter e acredita no potencial de transformação que as ferramentas digitais vão trazer para o mercado cultural. Ele foi nosso décimo quarto entrevistado.

Andre Lemos

A gente tem hoje dois sistemas funcionando em extensão, um que é a indústria cultural clássica, passiva, que tem um processo de adequar produtos a uma massa de espectadores, ouvintes, e outro que é um processo mais conversacional, transversal, de baixo para cima, que está provocando algumas mudanças e reações na indústria. Eu acho que para o usuário e para o produtor, artista, músicos em geral, esses sistemas são muito positivos porque oferecem duas instâncias, uma mais passiva e outra mais aberta, mais tranversal em que se tem a possibilidade de controlar todo o processo produtivo, não sendo apenas um receptor, mas também um produtor ativo de conteúdo. Eu vejo para a paisagem comunicacional e para a cultura contemporânea um avanço considerável porque essa tensão é benéfica para todos”, disse em entrevista feita por telefone.

“Antes se comprava um LP, um CD todo, agora você pode comprar uma música e isso já agrega uma adaptação aos novos tempos. A partir do momento que a maioria das práticas exercidas hoje no mundo coloca as pessoas na ilegalidade, marginalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria é porque alguma coisa está errada. Você não pode transformar toda uma população de usários em marginais. Se isso acontece é porque tem alguma coisa esquisita, elas [as empresas] têm condições, dinheiro e massa cinzenta para buscar novas alternativas. Não querem fazer isso ainda porque isso significa uma mudança efetiva na margem de lucro, nos negócios, mas a longo prazo, acredito que vamos ver aparecer por aí muitos formatos diferenciados, como já vemos algumas gravadoras virtuais, editoras de livros de ebooks, essas coisas começam a aparecer e mostram esse impacto”.

“Em todas as áreas estamos tendo mudanças, talvez na área da música e na distribuição de imagens tenha sido com mais impacto. Mas no fundo, eu acho que o que caracteriza essas transformações é a possibilidade de as pessoas poderem produzir, de consumir, distribuir informação. Isso é a base e é o que está na estrutura da rede. Esse poder de produzir obras com a participação e colaboração de outros, que era o mais complicado e difícil”.

“[Os artistas devem] tentar utilizar ao máximo os dois sistemas. Eu não tenho uma visão muito purista de achar que você tem que partir para um lado totalmente alternativo. Eu acho que a depender da sua colocação no universo onde você insere (vídeo, música, cinema) é importante, assim como transitar por todos os sistemas, desde uma grande gravadora até disponibilizar suas músicas em sites sociais e criar seu nicho. Eu acho que o artista começando hoje deveria atacar em todas as frentes, tentar todas as frentes e saber o que se pode ganhar em cada uma delas. O sistema mesmo vai tentar se organizar a partir desta dinâmica, é importante que tenham pessoas que possam disponibilizar as suas obras de maneira mais livre e participativa, mas que também possam viver da sua obra, seja com shows e outros produtos agregados a sua obra. Acho que o artista hoje tem muito mais possibilidades de fazer valer seu trabalho do que quando ele era centralizado por uma indústria que não poderia acolher a todos. Hoje, com essas plataformas, você tem a possibilidade de existir e viver do seu trabalho“.

As mídias nunca são universais. Quando se fala em democratização, se pensa em universalização do acesso. De forma comparativa, a internet é muito mais democrática que os outros meios porque ela permite que você produza e distribua informação livremente com poucos recursos e sem concessão do Estado. Hoje se pode ter um veículo de comunicação usando um local público, pagando pouco ou tendo essas ferramentas em casa. Obviamente ela não é universal por causa do acesso, que ainda é um problema em vários países, inclusive no Brasil. O tempo que a internet demorou para atingir 50 milhões de usuários foi muito mais rápido que as outras mídias demoraram para fazer o mesmo. Temos aí um processo que temos que aproveitar politicamente e socialmente também. Num país como o nosso, carente de muitas coisas, essas tecnologias são importantes para dinamizar a cultura e a economia”.

* foto de flickr.com/lufreitas

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‘O livro nunca foi produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema’, diz Cardoso

2 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Czarnobai, ou Cardoso, é autor do livro ‘Cavernas & Concubinas’, lançado em 2005 pela DBA Editora. O escritor e jornalista desempenha multifunções: é consultor criativo (ajuda empresas a desenvolverem produtos de comunicação para internet, filmes, TV, revistas), roteirista, produtor musical, co-fundador (com Daniel Galera) do CardosOnline (fanzine que circulou por email entre 1998 e 2001, e que também revelou nomes como Clarah Averbuck e Daniel Pellizzari). Cardoso, que afirmou ter usado a internet em 99% do tempo em “EMPIRISMO FREESTYLE”, pode ser acompanhado em seu site, blog e no Twitter. Ele foi nosso décimo terceiro entrevistado.

Cardoso
*foto de divulgação

A internet, na verdade, serve como um grande POTENCIALIZADOR: encurta distâncias, aumenta a rede (de consumidores, divulgadores e comparsas) e reduz radicalmente o tempo necessário para que as coisas aconteçam. Mesmo assim, prefiro acreditar que, independente da internet, as mesmas coisas acabariam acontecendo na minha vida – mas provavelmente demorariam bem mais para acontecer. Não posso dizer que o uso da web foi algo totalmente intencional porque comecei a usá-la justamente quando ela surgiu comercialmente no Brasil, por volta de 1996-97. Eu não tinha a idéia do que aconteceria – ninguém tinha. Ao longo dos anos, em um ou outro momento, é evidente que fiz um uso mais consciente de algumas de suas ferramentas visando algum objetivo bem específico, mas em geral te confesso que 99% das coisas que fiz foram embebidas do mais puro EMPIRISMO FREESTYLE”, disse em entrevista por email e seguindo seu estilo literário, Cardoso nos respondeu usando Caps Lock, de acordo com sua preferência.

“[As mudanças que o mercado editorial vem passando são] muito mais positivas que negativas! Mais gente lê e mais gente escreve: exatamente dois pré-requisitos fundamentais para que exista um mercado editorial. Dois dados interessantes sobre a Companhia das Letras, uma das principais editoras do país: em 2008 ela bateu seu próprio recorde de vendas, número que já foi superado em incríveis 13% só nesses primeiros 9 meses do ano. Ou seja, contrariando todas as expectativas, o mercado editorial está se fortificando. Quanto ao escritor ter mais liberdade ou poder, em relação especificamente às editoras acredito que isso não acontece. Nesse sentido a relação não mudou praticamente em nada. Quer dizer, editores ainda recebem, avaliam e (na maioria das vezes) recusam originais que chegam às suas mãos encadernados – não via e-mail ou links. Fora isso, a grande verdade é que liberdade o escritor sempre teve. Poder, talvez nunca (ou quase nunca). A literatura nunca foi um hábito de massa em nenhuma cultura O que o escritor de hoje realmente tem de diferente do escritor de 20 ou 30 anos atrás são duas coisas: 1) um número muito maior de veículos para sua obra, sejam blogs, sites literários, revistas, jornais ou editoras independentes; 2) facilidade muito maior de estabelecer e manter uma rede de contatos, tanto entre leitores como entre outros escritores. . Pode parecer pouca coisa, mas é o que faz toda a diferença. O resto é ilusão, afobação ou mau-caratismo”.

Os verdadeiros artistas não planejam suas carreiras. Eles simplesmente fazem aquilo que devem fazer. Um escritor vai criar um blog, abrir uma conta no twitter, imprimir 300 cópias de um livreto numa gráfica expressa, pendurar 50 cartazes nas paradas de uma determinada linha de ônibus. Fazer disso uma carreira não é o trabalho de um artista. A carreira vai sendo construída (ou não) ao longo da vida. A importância do fã, agora, é a mesma de antes. O que mudou aqui não foi a importância, apenas a relação. Hoje, um fã pode facilmente virar amigo do seu ídolo – e isso é muito ducaralho”.

“Troca de arquivos não é pirataria. Pirataria, pra mim, é apropriar-se de algo que não é seu e explorá-lo em busca de LUCRO. Ou seja, se eu baixo um filme que ainda não saiu no cinema, o assisto e até compartilho, não acho que isso seja pirataria. Se eu realmente gostar do filme, isso pode me levar a comprar um DVD com extras ou até mesmo ir ao cinema para vê-lo novamente numa tela maior, com um som mais legal. Mesmo se eu compartilhar esse arquivo numa rede p2p e outras 300 ou 400 pessoas tiverem acesso a ele, não acho que isso seja ruim para a indústria e para o artista. Pelo contrário: amplia a divulgação. Foda é o cara baixar um filme, fazer 500 cópias e vender a R$ 10 por aí”.

“[A cultura tem sido democratizada] sem sombra de dúvida. Mas não só pela natureza da internet em si: acho que essa democratização – ou seja, essa possibilidade de participação efetiva do POPULACHO – vem muito mais de uma política responsável de inclusão digital que qualquer coisa. Isso se traduz na queda dos preços de computadores, instalação de pontos de acesso e proliferação de lan houses, inclusive e principalmente nas periferias brasileiras (só na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, hoje são mais de 400)”.

“O público de literatura é muito diferenciado, e quando compra um livro na verdade adquire um pacote que vai além do conteúdo. Não dá pra comparar a literatura com a música e o cinema. São coisas muito diferentes, vendem produtos muito diferentes e têm públicos muito diferentes. Se na música existem uns poucos puristas que preferem ouvir seus discos de vinil e o cinema conta com uns heróis que fazem questão de freqüentar salas que usam projetores de película, a esmagadora maioria do público da literatura é afeita de todos os pormenores e rituais associados à leitura. Em outras palavras: quem gosta de ler em geral gosta não apenas do CONTEÚDO, mas também da FORMA. O cheiro do livro, a arte da capa, a MANCHA gráfica – e também a possibilidade de sentar embaixo de uma árvore, no assento de um avião ou até mesmo numa privada e apreciar a leitura. Além disso, há a questão do livro nunca ter sido produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema. Literatura sempre foi um mercado de nicho – um modelo que tende a se fortalecer nesse cenário fragmentado da era da internet. Em tempo: recentemente o TorrentFreak divulgou a lista dos 10 livros mais compartilhados via redes p2p de janeiro a setembro de 2009 – o único título de ficção era a série TWILIGHT. A série infanto-juvenil sobre vampiros aparecia em sétimo lugar, e isso nem de longe abalou suas vendas em todo o mundo – na casa dos MILHÕES. Resumindo: escritores não tem nada a temer”.

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‘Se o ‘Tapa na Pantera’ tivesse passado na TV eu ia responder a ação judicial’, diz cineasta Esmir Filho

28 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Esmir Filho é um dos realizadores de ‘Tapa na Pantera’, vídeo que estourou no YouTube em 2006. O cineasta, formado na FAAP em 2004, já havia feito outros trabalhos, mas foi este curta engraçado que o levou a popularidade (e o vídeo não foi colocado na rede por Esmir). Antes deste vídeo, já tinha recebido prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Kiev, na Ucrânia, e de Huelva, na Espanha, com o curta “Ímpar Par“. Além disso, o também curta “Alguma Coisa Assim” recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2006. No momento, Esmir prepara o lançamento do longa ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’ em que trata do que é crescer em um mundo em que o virtual e o real já não têm mais fronteiras definidas. O filme tem estreia prevista para fevereiro. O cineasta mantém uma conta no Twitter e nos contou que a internet foi importante para se tornar conhecido por pessoas fora do circuito de cinema e que a rede entrou na sua vida “sem ser convidada”. Esmir foi nosso décimo entrevistado e conversou conosco pessoalmente na produtora em que trabalha.

Esmir Filho
* foto de divulgação

“Ela [a internet] entrou sem ser convidada e aos poucos virou um meio de contato para mandar email para festivais de cinema, por exemplo, porque antes era carta. O próprio ‘Tapa na Pantera’ me fez olhar para o YouTube, assim como muita gente. Quando o ‘Tapa’ aconteceu, e foi um fenômeno espontâneo cultural, eu fiquei assustado pela forma como ele se disseminou e como ele apresentou o YouTube para o Brasil. Muita gente ficou conhecendo o site por causa do vídeo, eu inclusive. E de novo a internet entrou na minha vida sem ser convidada. E daí eu percebi que a internet é um terreno novo. É muito espontâneo. É uma coisa que a gente nunca fez, porque dentro da TV, do cinema, a gente sempre tentou trazer assuntos que as pessoas gostam por causa do Ibope. Na internet não tem nada disso. Quando eu achava que algo ia fazer sucesso, ninguém olhava e quando eu achava que não ia, bombava por algum motivo. É louco. Você joga e depende muito de quem pega e como vão ver aquilo. É muito incerto”.

“A mídia adora frases, títulos e coisas… Não só isso me ajudou. Mas quando eles souberam do ‘Tapa na Pantera’, eles souberam que o Esmir tinha acabado de ganhar o Festival de Cannes por melhor roteiro e que o Esmir estava com um projeto de longa e que estava fazendo outro curta. Eles iam saber quem era eu. E isso foi legal no ‘Tapa na Pantera’. Não foi porque me lançou, mas porque souberam quem eu era. Se eu tivesse só um vídeo, eu não poderia ser considerado cineasta, mas eu fiz cinema, fiz meus curtas e meu projeto de carreira até chegar no meu longa. Mas tem gente que acha que eu fiz ‘Tapa na Pantera’ e já estou lançando um longa”.

Eu acho que a pirataria não é uma questão, é um fato. Ninguém tem que lutar contra. A internet está aí, ninguém vai fechar a internet ou o YouTube. Não existe isso. Ainda tem muita gente indo no cinema, eu não sei se a bilheteria tem baixado por causa disso, mas a pirataria já é um fato. O que me incomoda muito é projeção digital de baixa qualidade e cinemas de qualidade colocam projeção digital porque é mais barato. Daí sim eu prefiro baixar, para ver numa qualidade daquela, eu prefiro ver em casa. Vão falar que isso é coisa de cineasta chato falando, mas cara, eu vejo amigos meus, leigos, que nem são ligados com cinema, e saem do filme falando que a fotografia estava escura. Eu falo: ‘Deus, o público sabe que é ruim’. Isso me deixa puto. Pirataria é fato, o filme vai ser disponibizado na internet. E não vou ser eu quem vai colocar”.

“Eu quero comunicar, não estou pensando em dinheiro e público, eu tô pensando em tocar pessoas e atingi-las. Sou artista neste aspecto, não quero ganhar dinheiro, para ganhar dinheiro eu faço outras coisas. Não se vive de cinema no Brasil, apesar que eu gostaria que se vivesse. Sabe aqueles filmes que o cara fez com R$ 5 mil? Não se pagou ninguém, isso faz com os profissionais não ganhem, e eles deveriam ganhar e também faz com que as pessoas façam outras coisas para ter fonte de renda, como publicidade que eu faço, principalmente. Queria muito que cinema fosse minha principal fonte de renda e eu não precisasse fazer nada. É isso que é meu ponto. Juro que eu não sei se a pirataria ajuda ou atrapalha nisso tudo, tem uma lista de vantagens e desvantagens”.

“Em ‘2001’, do Kubric, o cara previu muita coisa: o computador, etc. Mas ele não previu o poder descentralizado, porque no filme é aquilo, a centralização. O Kubric não previu a internet e poderia ser aquele mundo, se não houvesse a rede. Ele previu que o computador ia tomar conta do ser humano, mas ele não previu que eu poderia acessar tudo o que eu quisesse e que eu poderia chegar a qualquer informação. Ele achava ainda que o poder estava centralizado numa cúpula, que era como era na época. E faz sentiodo, não é uma crítica. Acho interessante como o mundo prega peças na gente, na nossa cabeça. Se o ‘Tapa na Pantera’ tivesse passado na TV eu ia estar respondendo a ação judicial, o louco é que foi um território tão livre, que ninguém veio me procurar para isso, nem a Maria Alice.Tem gente que defende que o vídeo é apologia às drogas e tem gente que fala que é uma campanha anti-droga. Mas que veículo é tão potente, quanto a TV em outra época, que fez com que eu colocasse uma polêmica, espirituosa, e não gerasse uma aversão, uma censura?”.

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