‘Não é possível dizer que 40 milhões de pessoas são criminosas porque compartilham música e vídeo’, diz sociólogo Sérgio Amadeu

20 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Sérgio Amadeu é sociólogo, doutor em Ciências Políticas e dá aulas na Faculdade Cásper Líbero. Defende o software livre e a inclusão digital no Brasil. Durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo, reformulou o portal do município e criou a rede pública de telecentros. Além disso, Amadeu pesquisa as relações entre comunicação e tecnologia, práticas colaborativas na internet e propriedade de bens materiais. Atualmente, participa de um blog coletivo, o Trezentos, outro blog acadêmico e o Twitter. Ele foi nosso sexto entrevistado.

Sergio Amadeu

“Esse modelo [de disponibilizar livros na rede] está ganhando adeptos porque a maior parte dos autores não vive, e já não vivia, de copyright (direito autoral). Quem vive de copyright é a indústria da intermediação. Vou te dar um exemplo: Guimarães Rosa era diplomata, Machado de Assis era funcionário público e jornalista, e Mário de Andrade também era funcionário público. O fato é que as redes digitais, ao libertarem o conteúdo do suporte, permitiram que o acesso aos bens culturais fosse democratizado, mas criaram um problema para os modelos de negócio baseados na compra e venda de bens físicos”, disse Sérgio em entrevista por telefone.

“Há algum tempo, mais da metade do tráfico da internet é de redes p2p, é de redistribuir e compartilhar arquivos, isso é feito por pessoas comuns. Não é possível dizer que 40 milhões de pessoas são criminosas porque compartilham música e vídeo.”

As redes não vão desaparecer, ao contrário, elas vão se ampliar. E as práticas de compartilhamento e participação não estão diminuindo, ao contrário, se você olhar as 10 maiores audiências da internet do planeta, tirando os mecanismos de busca e de mensagens instantâneas, os sites que têm muita audiência, que chamam muito a atenção, são aqueles que permitem a participação das pessoas. Um artista que quer mostrar o seu trabalho? Coloque na rede. E o que ele vai ter que buscar? São formas alternativas de remuneração, os modelos estão sendo experimentados. Mas, a melhor forma de disseminar seu trabalho é pela rede. Se tiver qualidade, você vai ser descoberto.”

“Acho que o modelo de viver de propriedade já era. Um médico vive do seu próprio trabalho, ele não vive de copyright de técnicas de operações que ele faz. Ao contrário, o conhecimento que ele usa é livre e aplica esta ciência no dia a dia e pelo seu saber acaba ganhando dinheiro. Teve uma fase do capitalismo industrial que as pessoas quiseram lucrar sendo donas de uma música para viver pelo resto da vida apenas com o ganho daquilo.”

Pirataria é uma metáfora ideológica, que eu não gosto, para tentar colocar práticas corriqueiras, que existem em nossa sociedade há muito tempo, em situação de crime. Então, o que eu quero dizer é que práticas cotidianas de compartilhamento de bens culturais, sem escassez nem desgaste, se tornaram pirataria. A indústria quer dizer que um navio pirata encostar em outro para matar e roubar é a mesma coisa que fazer um download. Sinceramente, é uma metáfora que não deu certo. Olha um exemplo: estava com meu N95, que tinha acabado de comprar na Avenida Paulista, e passou um cara e me roubou. Se ele tivesse feito um download, eu estaria com meu celular. O problema é que o celular é um bem físico, é diferente de uma música, que pode ser copiada milhões vezes sem ter nenhuma alteração no original. Essa é a diferença. A indústria resume e unifica tudo em uma metáfora péssima, eles querem dizer que quando se copia uma música você está roubando algo de alguém, o que não é verdade. Isso é uma batalha ideológica que eles querem fazer na sociedade”.

* foto de flickr.com/wikibrasil;


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