‘Tratar o público como bandido foi algo suicida’, diz João Marcello Bôscoli

22 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

João Marcello Bôscoli é músico, empresário e presidente da Trama, uma empresa de música, nas suas próprias palavras, que disponibiliza canções para baixar ou ouvir por streaming sem nenhum ônus para o internauta. No entanto, o músico recebe pagamento conforme seu trabalho é ouvido (o dinheiro vem de patrôcínio). A Trama tem, entre outras, composições do Cansei de Ser Sexy, Fernanda Porto, Elis Regina e Móveis Coloniais de Acaju. Ele prepara 400 álbuns produzidos pela empresa para ser oferecidos de graça pela internet em 2010. Bôscoli foi nosso décimo nono entrevistado.

João Marcello Bôscoli

* divulgação

“Ganhamos muitas possibilidades [com a internet] porque deixamos de precisar de intermediários para publicar e divulgar nossas obras. Quando publicamos o livro [Cultura Livre, do Lawrence Lessig] do Creative Commons, aprendi mais uma série de coisas e percebi que nossa política de liberar tudo, sem controles de cópias (DRM) estava correta ou mesmo a inclusão de um cd-r virgem no primeiro álbum do Cansei de Ser Sexy eram decisões corretas. Sem a web, estaríamos fritos“, disse em entrevista por email.

“[Processar o Napster foi] Completamente equivocado e irracional. Perderam o passo da história completamente. Tratar o público como bandido foi algo suicida“.

“Nossa receita vem de várias fontes: patrocínio de marcas, editora de música, licenciamento, agenciamento de artistas, vendas de cds, dvds e vinis. Nosso futuro será sempre ligado à música“.

“Logicamente não há fórmulas [para um músico iniciante], mas sem tocar ao vivo regularmente e usar a web como instrumento de promoção, fica muito difícil avançar. E sem público, ou seja, alguém pra ouvir, a música não evolui. E o fã, historicamente tem um papel importante na difusão da obra do seu artista querido“.

“Troca de arquivos não é crime. As leis estão obsoletas, tal qual quando o rádio começou”.

“As gravadoras, naquele modelo tradicional que ficou conhecido, já se foram. Pessoalmente, nunca abri uma gravadora. Quando compramos pesquisas antes de abrir a Trama, já era líquido e certo a obsolescência do formato. Abrimos uma empresa de música. Tanto que primeira compra foi uma mesa de som e montamos os estúdios antes dos escritórios”.

Na área da música, desde o início do século passado, a maior parte ouvida sempre foi de graça e no futuro continuará assim“.

“[estamos de alguma forma vivendo a ‘democratização’ da cultura?] Sim, claro. Nunca foi tão barato produzir música. Além disso, com a web, qualquer pessoa pode publicar sua obra livremente sem perguntar nada pra ninguém. É uma bela época“.

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‘Para mim e para uma geração inteira, a internet é a possibilidade de existir no mercado’, diz O Teatro Mágico

14 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Fundado em 2003, O Teatro Mágico é um conjunto independente até hoje: nunca assinou com gravadora e se tornou conhecido pela rede. O grupo de Osasco já lançou dois CDs e um DVD, produzidos pela própria banda, e vendeu cerca de 85 mil cópias (os álbuns são sempre vendidos a preços entre R$ 5 e R$ 15). O Teatro disponibiliza suas músicas (de graça) no site da Trama Virtual, mantém um site que tem uma loja com camisetas e itens para os fãs, além de um perfil no MySpace, no Twiiter e no YouTube. A trupe, que têm acrobatas, palhaços, e claro, músicos, foi nossa décima quinta entrevistada.

O Teatro Mágico | Parque da Uva

*foto de flickr.com/alexandrechang

Para mim e para uma geração inteira de músicos, atores, artistas plásticos, produtores culturais a internet é a possibilidade de a gente existir no mercado. Até então, a gente precisava do bom humor de alguém de uma rádio, da televisão para colocar você alguns minutos no meio de uma programação furada. Na verdade, a internet é uma maneira democrática de tornar acessível os bens culturais a todas as pessoas e isso só traz benefícios para quem é músico a alcançar outros patamares, outro público e muitas vezes a gente jamais conseguiria”, disse Fernando Anitelli em entrevista por telefone.

O ser humano é assim, ele compartilha coisas que ele acha interessante, conceitos novos, isso é natural. Agora querem criminalizar esse hábito, isso não faz nenhum sentido, isso é incoerente. Então, para muitos autores novos a internet passou a ser um campo onde você pode minimamente gravar as idéias do seu trabalho, pode montar seu blog, pode ter sua biblioteca de fotos, de vídeos, tudo isso de maneira gratuita. Hoje, o artista tem que aprender a ser o gestor da sua própria obra, tem que parar com esta coisa de que a gravadora vai aparecer com um sapatinho de cristal e vai colocar o cara em um programa dominical para fazer sucesso. Isso não existe. O artista tem que trabalhar diariamente com seu público para fazer um trabalho com bom conteúdo, para ter o que colocar, o que falar, o que debater“.

“A gente está encabeçando um movimento de MPB, que é um movimento de Música Para Baixar e que propõe uma flexibilização na questão dos direitos autorais, mas o autor não perde o direito autoral dele. A gente tem que brigar para que ninguém seja taxado para ouvir uma música, inclusive eu sou taxado para tocar a minha música. Porque hoje, o ECAD multa O Teatro Mágico se não avisarmos com 15 dias ou 1 mês de antecedência onde vamos vai estar e quais músicas vamos tocar. Então, se o público pede um bis de uma música que eu não classifiquei, se eu tocar estou cometendo um crime. Quer dizer, um crime comigo mesmo porque eu estou tocando minha própria música. Isso é um absurdo, uma postura equivocada das instituições que se traduzem como defensoras dos músicos e da produção cultural no país. A gente quer ter a chance de debater e formar e informar novos consumidores da música, novos produtores de cultura, é isso”.

“Eu já fiz parte de uma gravadora, há uns 10 anos e caí no conto do vigário porque disseram que eu poderia gravar meu material e minha música tocaria nas rádios, o que não era aquilo. Quando a gente estava gravando a oitava música, o dono da gravadora veio e falou: ‘grava tudo agora em formato de forró, que a moda é essa’. Eles estavam preocupados com o dinheiro, só isso. Enquanto no final da ponta tinha alguém preocupado em conceber uma música, uma experimentação traduzidas com poesias, arranjos e musicalidade. Então, hoje o músico pode ter muito mais liberdade no seu trabalho, muito mais autonomia na concepção das suas coisas, na divulgação, ele é capaz de conhecer seu público, criar comunidades para isso”.

Quem cuida do artista é o próprio público. O maior tesouro do artista é o público. Nos dias atuais, como sempre deveria ter sido, o artista tem que ficar frente a frente com o público. Tem que conversar e fazer o trabalho de formiguinha. Até hoje quando O Teatro Mágico vai a alguma cidade, a gente conversa com uma rádioweb, vai na rádio de faculdade, fala com fanzine, com comunidade local, com a Globo, com o SBT. A gente também não pode deixar de se articular nos meios, nas mídias já convencionais. Até porque são concessões que o estado fornece, ou seja, de uma certa maneira isso tudo já é nosso e deveria ser trabalhado para o público, mas não é isso que acontece”.

“[a troca de arquivos não é pirataria] O fã não é pirata. A música é livre, não é caridade, não é doação, é acesso aos bens culturais. A pirataria é pegar o seu trabalho e revender por um preço menor e aí a sacanagem começa. O Teatro Mágico tem sua música livre na internet, mas vende CD por R$ 5 (com um encarte melhorado por R$ 10) e o DVD por R$ 15. E a gente tem a prova que as pessoas baixam de graça na internet e quando vão no show compram o material, eles sabem que o músico precisa daquilo. Além do que, aquilo não está sendo empurrado goela abaixo para ele. Fã é o divulgador, o co-produtor que vai sempre nos ajudar num momento difícil. É o público que vai dar sobrevida para o artista. A gente tem que valorizar justamente essa ponta da cadeia produtiva e não a gravadora que tem um monte de dinheiro e está interessada em fazer mais dinheiro”.

“A música não pode ser só um produto, ela é um presente de celebração, ela é algo muito mais mágico e imaterial que estão imaginando. Então, tratar a música como um pedaço de cadeira, que é um objeto que você usa, gasta e aquilo morre, está equivocado porque quanto mais se ouve a música, mais ela se torna famosa. O cara que trabalhava fazendo o marketing do nazismo disse que uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade. Num paralelo com a música, uma música ruim tocada mil vezes se torna um sucesso. Você acaba acreditando que o que tem de cultura no nosso país é isso que estão mostrando. Então a gente tem que parar com essa comodidade de achar que o que é colocado para a gente é o que nos resta, o que nos sobra, porque não é isso”.

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