‘Pirataria é uma parte das consequências do acesso fácil a bens culturais’, diz Marcelo Carvalho

30 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Carvalho é filósofo e nos deu aula no curso de jornalismo, na Metodista. Atualmente, ele trabalha na Unifesp e Ufscar e foi procurado para conversar conosco porque sempre levava filmes (interessantíssimos) para as aulas, que eram na maioria “pirateados”, baixados da rede. Por ser filósofo, ele sempre tinha uma resposta à mão e argumentos que nos faziam repensar o conceito de pirataria. Marcelo foi nosso décimo segundo entrevistado.

Marcelo Carvalho

* foto de divulgação

“[As mudanças surgidas pelas tecnologias digitais] são positivas em todos os aspectos que você pensar. A grande transformação está nas mídias, nos meios de transporte e nos meios de acesso da cultura. Todo desenvolvimento de mídia deste período tem como impacto fundamental a facilidade do acesso, a ampliação do acesso, o barateamento dos bens culturais. Não vejo algo de negativo neste processo, pelo contrário. O que eles chamam de pirataria é uma expressão, uma parte das consequências da facilidade de acesso a bens culturais que implica uma mudança no formato do acesso a cultura, mas os envolvidos vão se incomodar, vão fazer um ajuste para baratear o processo, ganhar agilidade, ganhar amplitude”, disse em entrevista por telefone.

“Posso contar minha carreira de pirata? O releaselog.net atualiza hora a hora os links das cópias que foram lançadas para baixar. Tem filmes que estão entrando no Brasil hoje e que eu já assistis há um ano, um ano e meio. Eu sou um consumidor enorme deste tipo de coisa e você não vai me convencer a esperar um ano e meio para ver o filme. Quem está produzindo o filme que tem que resolver um problema de estrutura de distribuição. Enquanto eles não resolverem, eles vão perder a oportunidade que eu mantenha um tipo de relação direta com eles. Na verdade, pessoas como eu são o sonho dessas empresas porque são pessoas que acompanham tudo isso. Eu pago de certa maneira por isso, pois pago as minhas conexões e certamente se eles oferecessem outras opções e plataformas eu optaria por elas. Não tem nada ver essa história de criminalização, eu acho isso um equívoco, é preciso rever esta plataforma para que justamente se atenda a este tipo de consumidor”.

“Não é pirataria, de maneira alguma. A música é mercadoria extremamente lucrativa, mas quando não se precisa mais do substrato material para ter acesso a canções, as gravadoras não sabem mais como fazer aquilo continuar sendo mercadoria. A subversão está nisso: era uma mercadoria extremamente lucrativa e de repente perde-se a oportunidade de retê-la como produto. É fabuloso para quem está olhando de fora para o problema das gravadoras, das editoras, pensar que aquilo que é cultura, livro, filme e música, de repente não é mais mercadoria e não se consegue mais domesticar aquilo. O que se abriu não foi a própria cultura, mas o acesso a ela, na época para ter acesso a cultura eu precisava comprar o objeto. Hoje, eu tenho que comprar o computador, o aparelho de som, há outras estruturas paralelas . Mas, isso não inviabiliza o negócio da indústria, por isso que acho que não é tão subversivo assim. Mas a indústria tem que se reinventar de outra forma, mas nem em sonho inviabiliza seu negócio. É um mercado bilionário…”

“Tem que gente que topa pagar [por arquivos na internet]. A Google, que é muito perspicaz na gestão destas coisas, está laçando uma estrutura de micro pagamentos nos EUA. Essas empresas vão cobrar de você pela velocidade do download e pela segurança. Você pode ter até acesso ao mesmo produto no mercado paralelo, mas sem essas garantias”.

“Quando eu tinha 18, 19 anos eu lia alguma coisa sobre música, um disco ou um cantor, e quando eu queria ouvir, eu tinha que juntar dinheiro ir a uma importadora, esperar três meses para chegar o produto. O acesso a cultura era caro e difícil e hoje, eu leio uma matéria, antes de terminá-la eu já estou ouvindo a música, tocando no meu computador. Isso faz com que a gente tenha acesso a uma pluralidade de experiências culturais muito grande. Essa é a grande novidade quando você barateia o acesso a rede (este acesso não é de graça nem para quem faz pirataria porque se paga a conexão ou a compra de um CD para piratear). O resultado disso é uma experiência mais aberta para a música, para a cultura em geral. Você deixa de ter acesso a conhecer poucas coisas porque elas passam a estar disponíveis em grande quantidade, o tempo todo. O grande problema passa a ser o inverso, ou seja, é você neste contexto enorme é poder selecionar e saber por onde você vai. Os fenômenos que surgem a partir da internet indicam que as pessoas têm caminhado por caminhos que não são mais controlados como eram antes por gravadoras“.

“A característica deste momento é de transição. Não há caminhos definidos, não há formas definidas. Então, você escapa da gravadora, mas é preciso ampliar o número de pessoas que acessam o site, sua música, e de alguma maneira os meios de comunicação convencionais continuam sendo muito fortes para isso. A alternativa que tem se construído são as redes sociais, que são uma versão contemporânea do ‘boca a boca’. [O fato de Paulo Coelho e Radiohead disponibilizarem seu material na internet não pode ser seguido] porque eles vêm de outra plataforma. Eles vêm de gravadora, de editora. A pergunta é a seguinte: suponha que o Paulo Coelho fosse o Paulo Coelho antes de lançar Brida, se ele publicasse seu material pela internet ele estourava do jeito que ele estourou? Provavelmente não. Quer dizer, tem toda uma estrutura de marketing atrás do lançamento, da figura, que ainda é garantia por editores. A mesma coisas vale para o Radiohead. Você tem uma estrutura tradicional que precede essa estrutura alternativa dada hoje”.

A estrutura convencional da música e do cinema ainda é muito lucrativa, então ainda não valeu a pena tirar o pé de dentro dela. Reclamam, choram, mas essa estrutura ainda é muito lucrativa e por isso essas empresas se mantém no negócio convencional, mas com o tempo isso vai mudar”.

Leia Também:
‘Não é possível dizer que 40 milhões de pessoas são criminosas porque compartilham música e vídeo’, diz sociólogo Sérgio Amadeu


E aí, se interessa pelo assunto? Quer saber mais sobre a cultura na era digital? Para ficar por dentro de tudo que rola por aqui assine o feed RSS do nosso blog ou siga-nos no Twitter!

 

Anúncios







%d blogueiros gostam disto: