‘A periferia usa o blog para divulgação intensiva porque precisa de uma visibilidade urgente’, diz Heloísa Buarque de Hollanda

29 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Heloísa Buarque de Hollanda é um nome importante do Brasil na área cultural. Além de ser escritora, editora e pesquisadora da área literária, a pós-doutora em sociologia realiza estudos nas áreas de cultura digital. Heloísa, de tempos em tempos, costuma revelar poetas e talentos literários em livros organizados por ela. Nos anos 70, foi a antologia ’26 Poetas Hoje’. Depois, foi a vez de ‘Esses Poetas – Uma Antologia dos Anos 90’, e agora em ‘Enter – Antologia Digital’ , que apresenta as diferentes formas de literatura que têm sido feita na e com a internet. Heloísa é uma grande entusiasta do universo digital e acredita que as classes mais pobres são beneficiadas com a rede, pois podem ser ouvidas pela primeira vez na história por outras camadas da sociedade. Heloísa mantém seu site pessoal, em que é possível acompanhar seu trabalho e outras novidades do universo literário. A escritora foi nossa décima primeira entrevistada.

Heloísa Buarque de Hollanda
* foto de divulgação

“Eu acho que [as mudanças promovidas pelas ferramentas digitais] são positivas. Como os equipamentos ficaram mais baratos, então qualquer um pode ser produtor de conteúdo. E esse canal se abriu para muito mais gente, portanto para muito mais cultura, para diversificar. Eu acho que a produção ficou mais leve e mais democrática“, disse em entrevista feita por telefone.

“O problema é que você tem um mercado muito complicado, e este mercado fecha a distribuição, só abre para alguns. Então você tem uma democratização relativa, como era de se esperar. Mas de qualquer jeito você pode se expressar de uma forma muito mais desenvolta e você tem também o canal da internet, e de repente com o Youtube você pode ser visto por milhões de pessoas. Quer dizer, canais são desobstruídos. Agora, a gente tem que esperar um pouquinho para ver se isso se consolidou numa democratização efetiva. Os caminhos democratizantes que estão muito claros e à mão“.

A lanhouse existe em todas as favelas, em uma quantidade surpreendente, porque não é só lanhouse que existe: quem tem computador em comunidades de baixa renda faz um negociozinho em casa alugando por hora o seu equipamento. Então há um acesso a sociabilidade e ao conhecimento nunca visto. Eu trabalho muito na área de literatura, e a literatura marginal paulista, principalmente, não usa o blog e a internet como os escritores do centro de classe média. Os setores do centro a usam para criar, colocam os textos na rede que vão virar livros. A periferia, como precisa de uma visibilidade urgente, usa o blog para uma divulgação intensiva e bem feitérrima. Eu sou capaz te dizer o que está fazendo agora de manhã o Ferrez, o Sacolinha, porque os blogs são diários. Tudo o que eles estão fazendo e pensando está lá. É muito bonito. E realmente é um ataque, uma guerrilha de visibilidade. E está sendo usado com muita força. O que é fantástico, porque eles não tinham acesso. É uma oportunidade única, é difícil o contato da periferia com a cultura central“.

“Eu acho que isso [a mudança de escrita na literatura] aconteceu para muitos jovens de uma geração que já nasceu com a cultura da internet. Você pega um autor da década de 90, do século XXI, você percebe na escrita dele em papel traços e reflexos bem claros de um comportamento na internet. Você vê uma perda de inocência do narrador, tem também o deslizamento entre gêneros literários muito tranquilo, muitas informações complementares na fala literária, o que faz com que se perca um pouco aquele foco central e aquele poder onipotente da narrativa”.

“Eu acho que [um artista] deve começar sempre pela internet. A visibilidade vem vindo por um blog, YouTube, músicas postadas na internet. Agora, todos estão tentando este caminho, eu acho. É um caminho de maior troca, mais confortável que colocar um texto na gaveta e esperar uma oportunidade. A prática está mostrando que a internet promove a venda no papel. Então, por exemplo, este site do Paulo Coelho é uma coisa irônica, você começa a ler na internet e vai comprar o livro – a venda dele aumentou com o site. O que a gente tem visto é que realmente você coloca provas na internet, às vezes um pedacinho do livro, ou se usa o original na internet para esquentar a demanda do papel, porque imprimir um Paulo Coelho não é a mesma coisa comprar um Paulo Coelho”.

“Não acho que seja pirataria [troca de arquivos na internet]. Se você flexibiliza o material com Creative Commons, se flexibiliza a autoria, isso pode dar produtos muito interessantes, que é uma tendência – a criação compartilhada. Então, eu acho que pirataria é quando o produto está fechado e na internet, mas essa pirataria não é grave, pirataria é grave com brinquedos, que pode ter tóxicos, ou remédios, aí realmente torna-se uma coisa muito grave. Agora, na internet é menos danoso. Quem perde com isso é o intermediário, que sempre foi a parte que mais ganhava na cadeia produtiva. E provavelmente quem vai ganhar quando esses novos modelos de negócio tiverem mais desenvolvidos, consolidados, vai ser o autor. Ele vai deixar de ganhar 10% da venda e vai ganhar mais. Eu sou editora, eu sei como é: o editor ganha 20%, o autor 10% e o resto é do intermediário. Esse é o caminho, o que não é justo”.

Tem escritores que vivem de palestras, que são quase equivalentes a shows, começam a taxar mais alto suas palestras e ele tem que estar naquela categoria celebridade, isso não é para todos. O mercado do livro ainda é imaturo. Da área da cultura, o livro ainda é o mercado mais frágil, menos consolidado, menos profissionalizado”.

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