‘Os efeitos da web na literatura são insignificantes frente às possibilidades futuras’, diz Sérgio Rodrigues

4 08 2010

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

O jornalista, crítico literário e escritor Sérgio Rodrigues é autor de um ótimo blog sobre literatura, o Todoprosa, que virou até livro: Sobrescritos (Arquipélago Editorial, 2010), lançado este ano. Depois de passar pela revista eletrônica NoMínimo e o portal iG, o blog está hospedado hoje no site da revista Veja. Ali, o autor publica curiosidades etimológicas, críticas, dicas, impressões literárias, notícias sobre o mundo do livro, além de suas próprias criações. Entre outros livros, Rodrigues publicou “Elza, a Garota”, “O Homem que Matou o Escritor” e “As Sementes de Flowerville”. O escritor, que também está no Twitter, foi nosso vigésimo segundo entrevistado:

“A internet não causou uma revolução imediata. O meu trabalho como escritor mudou muito pouco. O meu trabalho como jornalista mudou muito mais. Ela criou uma interatividade muito grande. Ajudou na divulgação do meu nome, cria uma sinergia. Agora, em termos de liguagem, a web não mudou nada ainda. Talvez a longo prazo isso venha a acontecer. Novas formas de se contar histórias podem surgir mas ainda é tudo muito experimental. Os efeitos da internet na literatura são ainda insignificantes frente às possibilidades futuras. Mas há muitas coisas boas que a internet trouxe, como a facilidade de se encontrar livros raros, por exemplo”, começou dizendo Rodrigues, em entrevista por telefone.

E continuou: “Entendo que o livro de papel não vai desaparecer tão cedo, ele vai conviver por muito tempo com o eletrônico. Já a internet é um grande sarau, ela substitui com vantagens a cobertura da mídia tradicional, e isso é muito positivo. Os livros costumam repercutir pouco, vender mal. A internet permite, assim como as livrarias e as bibliotecas, que novos livros sejam descobertos. A universidade mesmo se prende aos clássicos. A internet valorizou a palavra escrita, ainda que haja adaptações. Meu filho escreve muito mais e para mim pouco importa se escreve com abreviações, não vejo nada de ruim nisso.”

“A indústria do livro, acredito, tem estado atenta a todo tipo de novidade. Com a disseminação do livro digital, no entanto, ela vai mudar dramaticamente nos próximos anos”, disse.

“É difícil planejar uma carreira. Isso vai sempre depender de cada pessoa. O que me parece obvio é que ninguém pode prescindir da internet. E isso é bastante natural para os mais jovens, embora o caminho seja, e continue, difícil. É preciso inteligência e criatividade para fazer diferente. Hoje é muito fácil fazer um blog, então isso cria um outro problema, talvez ainda maior, o de ser percebido. Ser percebido talvez seja tão difícil como antes e isso não é a grande panacéia dos escritores. O mais relevante é a discussão em torno do assunto e as possibilidades abertas que são maiores do que jamais foram. O CardosoOnline, por exemplo, foi um fenômeno do inicio da internet. Hoje seria mais difícil. A simples novidade já era assunto, notícia. Hoje muita gente faz isso.”

“(P2P), tecnicamente é pirataria, mas a questão dramática para mim parece ser outra. E é como ganhar dinheiro na era digital? Na música, para muitos artistas, isso se tornou impossível. Agora para um escritor é ainda mais complicado, o músico pode ganhar com shows. Já palestra é para poucos escritores. Mas para mim a uma questão filosófica mesmo, quer dizer a cultura, a palavra escrita perdeu seu valor? Mas daí achar que a pirataria vai acabar é ser ingênuo. Talvez tudo isso, possa ser até positivo ao obrigar as empresas a ter que oferecer mais do que o pirata.”

“Por mais que tente proteger isso, livros, músicas e filmes vão circular livremente e de graça pela internet. Viver de direito autoral, viver de ser escritor, é algo muito difícil. Outras coisas precisam entrar no bolo. Mesmo os maiores vendedores de livro fazem outras coisas. Esse circuito de palestras, eventos, cursos, está em expansão. E é uma opção em franco crescimento.”

“Democratização da cultura? Primeiro é preciso definir essa palavra. Mas o que vejo é uma difusão praticamente universal da informação, a fruição disso depende de uma base educacional que hoje é precária, o que é uma grande estupidez. Mas a ferramenta de divulgação (a internet) é imensa e isso é extremamente positivo”, conclui.

* Essa entrevista foi concedida em outubro de 2009, quando o livro-reportagem estava sendo feito. Devido a problemas de agenda, apenas conseguimos disponibilizá-la agora

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‘Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada’, diz Marcelo Duarte

21 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Duarte é jornalista, escritor e autor da famosa série de livros ‘O Guia dos Curiosos’. Duarte já trabalhou em diversos veículos e desde 1999 mantém sua editora, a Panda Books, um blog, entre outras atividades em meios de comunicação. Ele foi nosso décimo oitavo entrevistado.

Marcelo Duarte

*reprodução

“Demos uma pesquisada no mercado e achamos que somos a primeira editora que faz releases eletrônicos e entrevistas com autores. Nós fizemos um canal, dentro do nosso site, com trailers animados dos nossos livros, fazemos entrevistas com nossos autores. Também estamos no Twitter“, disse em entrevista por telefone.

“Hoje, as livrarias virtuais são importantes no país porque há pouquíssimas lojas físicas. É um problema do Brasil que a internet resolveu. Qualquer pessoa pode comprar um livro pela loja virtual”.

“A gente já descobriu autores por internet, já publicamos livros de blogueiros, temos hoje uma facilidade para convidar pessoas para divulgar os livros. Os novos talentos tinham mais dificuldade para encontrar uma editora que têm hoje. Hoje um blog bom, comentado, rapidamente chega aos ouvidos de uma editora. Então, neste ponto acho que foi muito benéfico para os dois lados: se consegue achar gente boa e o cara consegue achar a editora também“.

A primeira grande dificuldade é fazer o primeiro livro. É fazer um trabalho bom, de qualidade para conseguir lançar. Porque daí, se o trabalho é bom mesmo, ele aparece, o autor tem grande possibilidade de fazer carreira. É muita gente acha que tem uma ideia genial ou alguma coisa maravilhosa porque perguntou para o amigo, para o parente, às vezes não tem uma avaliação profissional. Então, quando pega uma editora, uma avaliação profissional, comercial tem gente que fica muito chateado e a gente é muito sincero. Tem que se pensar como negócio, às vezes a gente sabe que o livro é realmente bom, mas comercialmente não tem grande apelo“.

“Muitos que fazem blog dizem: ‘tive tantos acessos, então meu livro vai vender tudo isso’. Não é verdade, às vezes atrapalha. Se a pessoa tem todo o conteúdo à disposição na internet, tem um público cativo, por que as pessoas comprariam para ler as mesmas coisas? A gente tem livro, da Tati Bernardi que é blogueira de sucesso, mas quando fechamos com ela, nós pedimos textos inéditos”.

“Não sei, acho que é uma coisa muito distante ainda [a pirataria atingir os livros] se as pessoas vão ficar baixando livros e lendo na tela. Acho que se esse perigo tiver próximo, vão criar mecanismos para tentar evitá-lo porque isso seria o fim da indústria cultural. Não faz sentido para um escritor fazer um livro, gastar o tempo dele e não ganhar nada com isso. Seria do fim da indústria cultural“.

“Vai ter uma geração que vai se acostumar mais facilmente a esses leitores digitais e vai poder baixar livros para ler naqueles aparelhos, não digo que não. É uma nova forma de instituição, não é o fim da editora. É mais uma forma de distribuição”.

“[a cultura vem sendo democratizada?] Acho que ainda não. Isso é papo para pirata. Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada. Então vai democratizar distribuindo, mas os shows custam R$ 200? Isso não é democratizar, é se apropriar de alguma coisa que não te pertence. Eu acho que é só furto”.

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‘Não ver a internet como uma grande aliada seria um erro para qualquer um’, diz Carol Bensimon

16 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Carol Bensimon deixou a carreira de publicitária para ser escritora. Ela começou contribuindo com revistas literárias, um fanzine eletrônico e mantendo um blog. Carol já publicou dois livros: ‘Pó de Parede’ (Não Editora) e ‘Sinuca embaixo d’água’ (Companhia das Letras) e pode ser acompanhada por seu site e Twitter. Carol foi nossa décima sétima entrevistada.

Carol Bensimon

* foto de www.insanus.org

O meu trabalho nasceu na internet. Quero dizer, quando comecei a escrever, o melhor método de divulgação era mesmo pela rede. Comecei com fanzine por mail, tive blog desde cedo, escrevi para revistas literárias virtuais… essas são, na maioria das vezes, as únicas opções de um escritor iniciante.
Agora que pude passar finalmente ao suporte “livro”, que é, no fim das contas, o objetivo de todo mundo, a internet participa de uma maneira importante na divulgação das minhas obras, e no retorno que tenho dos leitores, seja porque escrevem em seus blogs comentários sobre os livros, seja porque colocam algo a respeito no twitter, seja porque me escrevem emails”, disse Carol em entrevista também feita por email.

“[as mudanças pelas quais a indústria literária vem passando são positivas ou negativas?] Positivas, é claro, ainda que a relação novas tecnologias e indústria do livro seja ainda meio tímida. Quanto ao poder e liberdade do escritor em relação às editoras, bem, não sei se é possível afirmar que haja mudança nesse sentido (até porque eu seria pretensiosa demais se fingisse saber exatamente como se passava anos atrás, ou décadas atrás). O que concordo, isso sim, é que o escritor de hoje participa mais ativamente de tudo que diz respeito ao seu livro. Não deixa mais simplesmente na mão de editora. Mas é claro que, no fim das contas, isso vai de cada um, da personalidade de cada escritor”.

“Não há um caminho único para todos. De qualquer modo, não ver a internet como uma grande aliada seria um erro para qualquer um. Quanto ao fã, sim, há um contato regular com alguns, e muitos retornos de gente que leu meus livros e que quer comentar, ou simplesmente dizer para mim o quanto aquela leitura foi importante. Isso é ótimo, é maravilhoso“.

“Não gosto muito de fazer previsões, mas acho que o livro, como objeto, ainda tem muito tempo de vida. A maioria das pessoas ainda tem uma resistência muito grande a ler em uma tela (sou uma delas). De qualquer forma, os direitos autorais não costumam ser a grande e única fonte de renda de um escritor, ao menos não no Brasil. Não consigo pensar nem em meia dúzia que podem se dar ao luxo de viver de direito autoral“.

“Sem dúvida. O desafio agora é lidar com tanta informação. Mês passado, em São Paulo, vi uma série de telas instaladas em elevadores de prédios comerciais e hotéis, dando as notícias do dia, as cotações cambiais e etc. Achei aquilo o perfeito reflexo do nosso tempo. Me dá medo. Será que não podemos passar 10 segundos sem receber nenhum tipo de informação?

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‘O livro nunca foi produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema’, diz Cardoso

2 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Czarnobai, ou Cardoso, é autor do livro ‘Cavernas & Concubinas’, lançado em 2005 pela DBA Editora. O escritor e jornalista desempenha multifunções: é consultor criativo (ajuda empresas a desenvolverem produtos de comunicação para internet, filmes, TV, revistas), roteirista, produtor musical, co-fundador (com Daniel Galera) do CardosOnline (fanzine que circulou por email entre 1998 e 2001, e que também revelou nomes como Clarah Averbuck e Daniel Pellizzari). Cardoso, que afirmou ter usado a internet em 99% do tempo em “EMPIRISMO FREESTYLE”, pode ser acompanhado em seu site, blog e no Twitter. Ele foi nosso décimo terceiro entrevistado.

Cardoso
*foto de divulgação

A internet, na verdade, serve como um grande POTENCIALIZADOR: encurta distâncias, aumenta a rede (de consumidores, divulgadores e comparsas) e reduz radicalmente o tempo necessário para que as coisas aconteçam. Mesmo assim, prefiro acreditar que, independente da internet, as mesmas coisas acabariam acontecendo na minha vida – mas provavelmente demorariam bem mais para acontecer. Não posso dizer que o uso da web foi algo totalmente intencional porque comecei a usá-la justamente quando ela surgiu comercialmente no Brasil, por volta de 1996-97. Eu não tinha a idéia do que aconteceria – ninguém tinha. Ao longo dos anos, em um ou outro momento, é evidente que fiz um uso mais consciente de algumas de suas ferramentas visando algum objetivo bem específico, mas em geral te confesso que 99% das coisas que fiz foram embebidas do mais puro EMPIRISMO FREESTYLE”, disse em entrevista por email e seguindo seu estilo literário, Cardoso nos respondeu usando Caps Lock, de acordo com sua preferência.

“[As mudanças que o mercado editorial vem passando são] muito mais positivas que negativas! Mais gente lê e mais gente escreve: exatamente dois pré-requisitos fundamentais para que exista um mercado editorial. Dois dados interessantes sobre a Companhia das Letras, uma das principais editoras do país: em 2008 ela bateu seu próprio recorde de vendas, número que já foi superado em incríveis 13% só nesses primeiros 9 meses do ano. Ou seja, contrariando todas as expectativas, o mercado editorial está se fortificando. Quanto ao escritor ter mais liberdade ou poder, em relação especificamente às editoras acredito que isso não acontece. Nesse sentido a relação não mudou praticamente em nada. Quer dizer, editores ainda recebem, avaliam e (na maioria das vezes) recusam originais que chegam às suas mãos encadernados – não via e-mail ou links. Fora isso, a grande verdade é que liberdade o escritor sempre teve. Poder, talvez nunca (ou quase nunca). A literatura nunca foi um hábito de massa em nenhuma cultura O que o escritor de hoje realmente tem de diferente do escritor de 20 ou 30 anos atrás são duas coisas: 1) um número muito maior de veículos para sua obra, sejam blogs, sites literários, revistas, jornais ou editoras independentes; 2) facilidade muito maior de estabelecer e manter uma rede de contatos, tanto entre leitores como entre outros escritores. . Pode parecer pouca coisa, mas é o que faz toda a diferença. O resto é ilusão, afobação ou mau-caratismo”.

Os verdadeiros artistas não planejam suas carreiras. Eles simplesmente fazem aquilo que devem fazer. Um escritor vai criar um blog, abrir uma conta no twitter, imprimir 300 cópias de um livreto numa gráfica expressa, pendurar 50 cartazes nas paradas de uma determinada linha de ônibus. Fazer disso uma carreira não é o trabalho de um artista. A carreira vai sendo construída (ou não) ao longo da vida. A importância do fã, agora, é a mesma de antes. O que mudou aqui não foi a importância, apenas a relação. Hoje, um fã pode facilmente virar amigo do seu ídolo – e isso é muito ducaralho”.

“Troca de arquivos não é pirataria. Pirataria, pra mim, é apropriar-se de algo que não é seu e explorá-lo em busca de LUCRO. Ou seja, se eu baixo um filme que ainda não saiu no cinema, o assisto e até compartilho, não acho que isso seja pirataria. Se eu realmente gostar do filme, isso pode me levar a comprar um DVD com extras ou até mesmo ir ao cinema para vê-lo novamente numa tela maior, com um som mais legal. Mesmo se eu compartilhar esse arquivo numa rede p2p e outras 300 ou 400 pessoas tiverem acesso a ele, não acho que isso seja ruim para a indústria e para o artista. Pelo contrário: amplia a divulgação. Foda é o cara baixar um filme, fazer 500 cópias e vender a R$ 10 por aí”.

“[A cultura tem sido democratizada] sem sombra de dúvida. Mas não só pela natureza da internet em si: acho que essa democratização – ou seja, essa possibilidade de participação efetiva do POPULACHO – vem muito mais de uma política responsável de inclusão digital que qualquer coisa. Isso se traduz na queda dos preços de computadores, instalação de pontos de acesso e proliferação de lan houses, inclusive e principalmente nas periferias brasileiras (só na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, hoje são mais de 400)”.

“O público de literatura é muito diferenciado, e quando compra um livro na verdade adquire um pacote que vai além do conteúdo. Não dá pra comparar a literatura com a música e o cinema. São coisas muito diferentes, vendem produtos muito diferentes e têm públicos muito diferentes. Se na música existem uns poucos puristas que preferem ouvir seus discos de vinil e o cinema conta com uns heróis que fazem questão de freqüentar salas que usam projetores de película, a esmagadora maioria do público da literatura é afeita de todos os pormenores e rituais associados à leitura. Em outras palavras: quem gosta de ler em geral gosta não apenas do CONTEÚDO, mas também da FORMA. O cheiro do livro, a arte da capa, a MANCHA gráfica – e também a possibilidade de sentar embaixo de uma árvore, no assento de um avião ou até mesmo numa privada e apreciar a leitura. Além disso, há a questão do livro nunca ter sido produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema. Literatura sempre foi um mercado de nicho – um modelo que tende a se fortalecer nesse cenário fragmentado da era da internet. Em tempo: recentemente o TorrentFreak divulgou a lista dos 10 livros mais compartilhados via redes p2p de janeiro a setembro de 2009 – o único título de ficção era a série TWILIGHT. A série infanto-juvenil sobre vampiros aparecia em sétimo lugar, e isso nem de longe abalou suas vendas em todo o mundo – na casa dos MILHÕES. Resumindo: escritores não tem nada a temer”.

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‘A periferia usa o blog para divulgação intensiva porque precisa de uma visibilidade urgente’, diz Heloísa Buarque de Hollanda

29 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Heloísa Buarque de Hollanda é um nome importante do Brasil na área cultural. Além de ser escritora, editora e pesquisadora da área literária, a pós-doutora em sociologia realiza estudos nas áreas de cultura digital. Heloísa, de tempos em tempos, costuma revelar poetas e talentos literários em livros organizados por ela. Nos anos 70, foi a antologia ’26 Poetas Hoje’. Depois, foi a vez de ‘Esses Poetas – Uma Antologia dos Anos 90’, e agora em ‘Enter – Antologia Digital’ , que apresenta as diferentes formas de literatura que têm sido feita na e com a internet. Heloísa é uma grande entusiasta do universo digital e acredita que as classes mais pobres são beneficiadas com a rede, pois podem ser ouvidas pela primeira vez na história por outras camadas da sociedade. Heloísa mantém seu site pessoal, em que é possível acompanhar seu trabalho e outras novidades do universo literário. A escritora foi nossa décima primeira entrevistada.

Heloísa Buarque de Hollanda
* foto de divulgação

“Eu acho que [as mudanças promovidas pelas ferramentas digitais] são positivas. Como os equipamentos ficaram mais baratos, então qualquer um pode ser produtor de conteúdo. E esse canal se abriu para muito mais gente, portanto para muito mais cultura, para diversificar. Eu acho que a produção ficou mais leve e mais democrática“, disse em entrevista feita por telefone.

“O problema é que você tem um mercado muito complicado, e este mercado fecha a distribuição, só abre para alguns. Então você tem uma democratização relativa, como era de se esperar. Mas de qualquer jeito você pode se expressar de uma forma muito mais desenvolta e você tem também o canal da internet, e de repente com o Youtube você pode ser visto por milhões de pessoas. Quer dizer, canais são desobstruídos. Agora, a gente tem que esperar um pouquinho para ver se isso se consolidou numa democratização efetiva. Os caminhos democratizantes que estão muito claros e à mão“.

A lanhouse existe em todas as favelas, em uma quantidade surpreendente, porque não é só lanhouse que existe: quem tem computador em comunidades de baixa renda faz um negociozinho em casa alugando por hora o seu equipamento. Então há um acesso a sociabilidade e ao conhecimento nunca visto. Eu trabalho muito na área de literatura, e a literatura marginal paulista, principalmente, não usa o blog e a internet como os escritores do centro de classe média. Os setores do centro a usam para criar, colocam os textos na rede que vão virar livros. A periferia, como precisa de uma visibilidade urgente, usa o blog para uma divulgação intensiva e bem feitérrima. Eu sou capaz te dizer o que está fazendo agora de manhã o Ferrez, o Sacolinha, porque os blogs são diários. Tudo o que eles estão fazendo e pensando está lá. É muito bonito. E realmente é um ataque, uma guerrilha de visibilidade. E está sendo usado com muita força. O que é fantástico, porque eles não tinham acesso. É uma oportunidade única, é difícil o contato da periferia com a cultura central“.

“Eu acho que isso [a mudança de escrita na literatura] aconteceu para muitos jovens de uma geração que já nasceu com a cultura da internet. Você pega um autor da década de 90, do século XXI, você percebe na escrita dele em papel traços e reflexos bem claros de um comportamento na internet. Você vê uma perda de inocência do narrador, tem também o deslizamento entre gêneros literários muito tranquilo, muitas informações complementares na fala literária, o que faz com que se perca um pouco aquele foco central e aquele poder onipotente da narrativa”.

“Eu acho que [um artista] deve começar sempre pela internet. A visibilidade vem vindo por um blog, YouTube, músicas postadas na internet. Agora, todos estão tentando este caminho, eu acho. É um caminho de maior troca, mais confortável que colocar um texto na gaveta e esperar uma oportunidade. A prática está mostrando que a internet promove a venda no papel. Então, por exemplo, este site do Paulo Coelho é uma coisa irônica, você começa a ler na internet e vai comprar o livro – a venda dele aumentou com o site. O que a gente tem visto é que realmente você coloca provas na internet, às vezes um pedacinho do livro, ou se usa o original na internet para esquentar a demanda do papel, porque imprimir um Paulo Coelho não é a mesma coisa comprar um Paulo Coelho”.

“Não acho que seja pirataria [troca de arquivos na internet]. Se você flexibiliza o material com Creative Commons, se flexibiliza a autoria, isso pode dar produtos muito interessantes, que é uma tendência – a criação compartilhada. Então, eu acho que pirataria é quando o produto está fechado e na internet, mas essa pirataria não é grave, pirataria é grave com brinquedos, que pode ter tóxicos, ou remédios, aí realmente torna-se uma coisa muito grave. Agora, na internet é menos danoso. Quem perde com isso é o intermediário, que sempre foi a parte que mais ganhava na cadeia produtiva. E provavelmente quem vai ganhar quando esses novos modelos de negócio tiverem mais desenvolvidos, consolidados, vai ser o autor. Ele vai deixar de ganhar 10% da venda e vai ganhar mais. Eu sou editora, eu sei como é: o editor ganha 20%, o autor 10% e o resto é do intermediário. Esse é o caminho, o que não é justo”.

Tem escritores que vivem de palestras, que são quase equivalentes a shows, começam a taxar mais alto suas palestras e ele tem que estar naquela categoria celebridade, isso não é para todos. O mercado do livro ainda é imaturo. Da área da cultura, o livro ainda é o mercado mais frágil, menos consolidado, menos profissionalizado”.

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‘Não é possível dizer que 40 milhões de pessoas são criminosas porque compartilham música e vídeo’, diz sociólogo Sérgio Amadeu

20 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Sérgio Amadeu é sociólogo, doutor em Ciências Políticas e dá aulas na Faculdade Cásper Líbero. Defende o software livre e a inclusão digital no Brasil. Durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo, reformulou o portal do município e criou a rede pública de telecentros. Além disso, Amadeu pesquisa as relações entre comunicação e tecnologia, práticas colaborativas na internet e propriedade de bens materiais. Atualmente, participa de um blog coletivo, o Trezentos, outro blog acadêmico e o Twitter. Ele foi nosso sexto entrevistado.

Sergio Amadeu

“Esse modelo [de disponibilizar livros na rede] está ganhando adeptos porque a maior parte dos autores não vive, e já não vivia, de copyright (direito autoral). Quem vive de copyright é a indústria da intermediação. Vou te dar um exemplo: Guimarães Rosa era diplomata, Machado de Assis era funcionário público e jornalista, e Mário de Andrade também era funcionário público. O fato é que as redes digitais, ao libertarem o conteúdo do suporte, permitiram que o acesso aos bens culturais fosse democratizado, mas criaram um problema para os modelos de negócio baseados na compra e venda de bens físicos”, disse Sérgio em entrevista por telefone.

“Há algum tempo, mais da metade do tráfico da internet é de redes p2p, é de redistribuir e compartilhar arquivos, isso é feito por pessoas comuns. Não é possível dizer que 40 milhões de pessoas são criminosas porque compartilham música e vídeo.”

As redes não vão desaparecer, ao contrário, elas vão se ampliar. E as práticas de compartilhamento e participação não estão diminuindo, ao contrário, se você olhar as 10 maiores audiências da internet do planeta, tirando os mecanismos de busca e de mensagens instantâneas, os sites que têm muita audiência, que chamam muito a atenção, são aqueles que permitem a participação das pessoas. Um artista que quer mostrar o seu trabalho? Coloque na rede. E o que ele vai ter que buscar? São formas alternativas de remuneração, os modelos estão sendo experimentados. Mas, a melhor forma de disseminar seu trabalho é pela rede. Se tiver qualidade, você vai ser descoberto.”

“Acho que o modelo de viver de propriedade já era. Um médico vive do seu próprio trabalho, ele não vive de copyright de técnicas de operações que ele faz. Ao contrário, o conhecimento que ele usa é livre e aplica esta ciência no dia a dia e pelo seu saber acaba ganhando dinheiro. Teve uma fase do capitalismo industrial que as pessoas quiseram lucrar sendo donas de uma música para viver pelo resto da vida apenas com o ganho daquilo.”

Pirataria é uma metáfora ideológica, que eu não gosto, para tentar colocar práticas corriqueiras, que existem em nossa sociedade há muito tempo, em situação de crime. Então, o que eu quero dizer é que práticas cotidianas de compartilhamento de bens culturais, sem escassez nem desgaste, se tornaram pirataria. A indústria quer dizer que um navio pirata encostar em outro para matar e roubar é a mesma coisa que fazer um download. Sinceramente, é uma metáfora que não deu certo. Olha um exemplo: estava com meu N95, que tinha acabado de comprar na Avenida Paulista, e passou um cara e me roubou. Se ele tivesse feito um download, eu estaria com meu celular. O problema é que o celular é um bem físico, é diferente de uma música, que pode ser copiada milhões vezes sem ter nenhuma alteração no original. Essa é a diferença. A indústria resume e unifica tudo em uma metáfora péssima, eles querem dizer que quando se copia uma música você está roubando algo de alguém, o que não é verdade. Isso é uma batalha ideológica que eles querem fazer na sociedade”.

* foto de flickr.com/wikibrasil;


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‘Nunca foi tão difícil aparecer no meio de tanta gente com acesso igualmente fácil ao público, digamos, do planeta’, diz o multimídia Nelson Motta

16 09 2009

Nelson Motta

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Nelson Motta é escritor, produtor musical e jornalista. Em 2007, publicou o livro e também em audiobook, ‘Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia’ (da editora Objetiva) com a trajetória e história do cantor. Motta também é autor das músicas ‘Dancing Days’ (com Ruban Barra) e ‘Como uma Onda’ (com Lulu Santos) e produziu discos de cantoras como Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte e Daniela Mercury. Atualmente, mantém um site em que disponibiliza seus trabalhos mais recentes e outros mais antigos, além de entrevistas, programas de rádio, músicas. Motta foi nosso quinto entrevistado.

Nunca na história desse país e desse planeta foi tão fácil e tão barato gravar um disco. E nunca na história das comunicações, da publicidade e do marketing foi tão fácil e barato mostrar o seu trabalho. Por isso mesmo, pelo volume da oferta, nunca foi tão difícil aparecer no meio de tanta gente com acesso igualmente fácil ao público, digamos, do planeta. O que acabou foi aquela farsa dos pobres consumidores comprarem um CD inteiro e caro só por causa de uma ou duas músicas. Já foi tarde. O mercado musical está se transformando – e crescendo. Mas não na velha indústria do disco, de tanta má e justificada fama, esta está nos estertores. Mas quem tem talento e um mínimo de tecnologia está na praça. O boca a boca, o mouse a mouse, o msn ao msn, é a mais poderosa ferramenta de promoção de um disco ou um artistas. [A internet] Não trouxe nada de ruim, já que a produção maciça de lixo cultural é inevitável em qualquer época, agora o volume é maior e a única necessidade é uma lata de lixo maior, faz parte da sociedade de consumo. Como a produção independente é muito maior, são maiores as chances de boas coisas acontecerem”, disse em entrevista feita por email.

Não considero troca de arquivos pela internet pirataria. A física, de CD, claro que prejudica todo mundo envolvido naquele disco, todo mundo trabalhando de graça para um vagabundo. Como compositor e escritor aceito que façam o que quiserem com minhas músicas e livros, desde que ninguém esteja ganhando dinheiro com isso. Se houver alguém ganhando algum, eu quero o meu! Em países civilizados, a pirataria material praticamente não existe, onde há tradição de se pagar pelo que se consome, em muitos lugares, Inglaterra, Japão, Suécia, o download pago está superando a venda de discos. Já no Brasil, com nossa tradição de desrespeito ao alheio, nossa mania de levar vantagem, nosso bordão de justificar tudo pelos baixos salários”.

* foto Dulce Helfer/AgênciaRBS;

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