‘Não sei como estaria hoje sem a internet’, diz escritor Daniel Galera

15 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Daniel Galera é escritor e tradutor de livros em língua inglesa. Pioneiro no uso da rede para divulgar seu trabalho literário, publicou na internet de 1996 a 2001, com destaque para os três anos como colunista do mailzine Cardosonline (COL). Lançou seu primeiro livro, o volume de contos ‘Dentes Guardados’, em 2001, pelo extinto selo independente Livros do Mal, criado por ele, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla. É autor ainda de ‘Até o Dia em que o Cão Morreu’ (também pela Livros do Mal), ‘Mãos de Cavalo’ e ‘Cordilheira’ (ambos pela Companhia das Letras). Mantém um site pessoal. Ele foi nosso segundo entrevistado.

butekao33Reprodução

“Publiquei meus primeiros textos na web, em diversos sites e publicações online, o que me permitiu formar um público leitor antes mesmo de ter livro publicado. O uso desse meio me pareceu uma escolha óbvia na época, por seu baixo custo e alto potencial de divulgação. Não sei como estaria hoje sem a internet. O mais importante ainda é o livro, e no meu caso as publicações independentes pela Livros do Mal foram o passo crucial para iniciar uma “carreira”, mas a internet nunca deixou de ser ferramenta útil para divulgar meu trabalho e me comunicar com leitores e outros autores”, escreveu Galera, em entrevista por email.

“Creio que (as mudanças pelas quais a indústria do livro vem passando) são positivas. O autor tem mais liberdade, sim, uma vez que há muitas formas alternativas e baratas de levar um texto aos leitores. Mas as editoras e o livro impresso seguem sendo essenciais, acho que nada substituirá definitivamente o livro em papel, embora o mercado possa se transformar bastante. Acredito que o livro eletrônico e o compartilhamento livre pela internet levarão as pessoas a ler mais, mantendo uma demanda significativa pelo livro em papel. Acho que o segredo para aproveitar o futuro mercado editorial é aprender a usar o compartilhamento de conteúdos a favor do autor.”

“O melhor plano de carreira é escrever bem e de forma constante. A obra é a origem de tudo. O autor deve se concentrar no seu trabalho, e o resto é decorrência do texto. Dito isso, acho que a melhor estratégia uma vez que há uma obra consistente é usar todas as formas de divulgação possível, incluindo internet, mas de forma humilde e não agressiva, e saber compartilhar uma parte do trabalho. Colocar um texto ou pedaço de livro para download gratuito, por exemplo, é uma forma inteligente de promover a obra nos dias de hoje. O que antigamente era apenas “boca-a-boca” é hoje uma rede muito mais complexa e ampla de sites de relacionamento pessoal etc. A experiência de fruição literária passa necessariamente por esses espaços virtuais hoje. Não é somente uma questão de marketing, é parte da própria atividade de produzir e ler literatura.”

Considero pirataria o comércio de cópias ilegais de um trabalho com direito autoral. O compartilhamento de arquivos na internet é uma nova realidade que não se encaixa exatamente no conceito clássico de pirataria, pois raramente há lucro ilegal envolvido. O compartilhamento é gratuito e parte de um interesse cultural. Por um lado, autores estão sendo privados de potenciais direitos autorais da venda de seu trabalho. Por outro, a difusão maior desse trabalho não raro se reverte em vendas ainda maiores dos produtos como livro impresso, CD, filme em cinema. Uma coisa é certa: o compartilhamento de conteúdos pela internet é uma realidade irreversível. Acredito que será possível conciliar compartilhamento e retorno financeiro aos autores. As fórmulas para viver de obras culturais nesse novo contexto estão sendo testadas, e aos poucos o mercado vai se adaptando. Negar que a realidade mudou é a única opção equivocada”, afirmou ainda.

Pra mim, democratização da cultura é produzir o que o público quer consumir. Não gosto desse termo. Prefiro pensar que as novas tecnologias estão meramente facilitando o acesso aos bens culturais. E creio que o público tende a recompensar os artistas que apreciam.”

“Aposto que o mercado de livros vai sobreviver à era digital. Como disse antes, acredito que o compartilhamento livre de conteúdo na internet promove a divulgação de autores e livros e aumenta o número de leitores em potencial. O texto lido na internet muitas vezes leva o leitor ao livro impresso, uma vez que o livro ainda é objeto insubstituível em suas características, e mesmo após a popularização dos e-books deve se manter relevante. O mercado vai mudar, sim, e as editoras que sobreviverão serão as que tiverem capacidade de se adaptar com ousadia. Há vários exemplos de como o compartilhamento digital pode incrementar vendas do livro impresso – os escritores Paulo Coelho, que divulga aos leitores em seu site oficial as fontes de cópias piratas de seus livros, e Cory Doctorow, que vem oferecendo seus livros na íntegra em cópia digital gratuita na internet, relatam aumentos de vendas a partir dessas práticas. Admito que é cedo para demonstrar cientificamente que esse processo é real, mas há sinais por aí, e eu tenho fé nesse sentido. O escritor que aprender a compartilhar sua obra de forma inteligente terá mais leitores e, por conseqüência, venderá mais livros”, aposta.

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