‘Se o ‘Tapa na Pantera’ tivesse passado na TV eu ia responder a ação judicial’, diz cineasta Esmir Filho

28 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Esmir Filho é um dos realizadores de ‘Tapa na Pantera’, vídeo que estourou no YouTube em 2006. O cineasta, formado na FAAP em 2004, já havia feito outros trabalhos, mas foi este curta engraçado que o levou a popularidade (e o vídeo não foi colocado na rede por Esmir). Antes deste vídeo, já tinha recebido prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Kiev, na Ucrânia, e de Huelva, na Espanha, com o curta “Ímpar Par“. Além disso, o também curta “Alguma Coisa Assim” recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2006. No momento, Esmir prepara o lançamento do longa ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’ em que trata do que é crescer em um mundo em que o virtual e o real já não têm mais fronteiras definidas. O filme tem estreia prevista para fevereiro. O cineasta mantém uma conta no Twitter e nos contou que a internet foi importante para se tornar conhecido por pessoas fora do circuito de cinema e que a rede entrou na sua vida “sem ser convidada”. Esmir foi nosso décimo entrevistado e conversou conosco pessoalmente na produtora em que trabalha.

Esmir Filho
* foto de divulgação

“Ela [a internet] entrou sem ser convidada e aos poucos virou um meio de contato para mandar email para festivais de cinema, por exemplo, porque antes era carta. O próprio ‘Tapa na Pantera’ me fez olhar para o YouTube, assim como muita gente. Quando o ‘Tapa’ aconteceu, e foi um fenômeno espontâneo cultural, eu fiquei assustado pela forma como ele se disseminou e como ele apresentou o YouTube para o Brasil. Muita gente ficou conhecendo o site por causa do vídeo, eu inclusive. E de novo a internet entrou na minha vida sem ser convidada. E daí eu percebi que a internet é um terreno novo. É muito espontâneo. É uma coisa que a gente nunca fez, porque dentro da TV, do cinema, a gente sempre tentou trazer assuntos que as pessoas gostam por causa do Ibope. Na internet não tem nada disso. Quando eu achava que algo ia fazer sucesso, ninguém olhava e quando eu achava que não ia, bombava por algum motivo. É louco. Você joga e depende muito de quem pega e como vão ver aquilo. É muito incerto”.

“A mídia adora frases, títulos e coisas… Não só isso me ajudou. Mas quando eles souberam do ‘Tapa na Pantera’, eles souberam que o Esmir tinha acabado de ganhar o Festival de Cannes por melhor roteiro e que o Esmir estava com um projeto de longa e que estava fazendo outro curta. Eles iam saber quem era eu. E isso foi legal no ‘Tapa na Pantera’. Não foi porque me lançou, mas porque souberam quem eu era. Se eu tivesse só um vídeo, eu não poderia ser considerado cineasta, mas eu fiz cinema, fiz meus curtas e meu projeto de carreira até chegar no meu longa. Mas tem gente que acha que eu fiz ‘Tapa na Pantera’ e já estou lançando um longa”.

Eu acho que a pirataria não é uma questão, é um fato. Ninguém tem que lutar contra. A internet está aí, ninguém vai fechar a internet ou o YouTube. Não existe isso. Ainda tem muita gente indo no cinema, eu não sei se a bilheteria tem baixado por causa disso, mas a pirataria já é um fato. O que me incomoda muito é projeção digital de baixa qualidade e cinemas de qualidade colocam projeção digital porque é mais barato. Daí sim eu prefiro baixar, para ver numa qualidade daquela, eu prefiro ver em casa. Vão falar que isso é coisa de cineasta chato falando, mas cara, eu vejo amigos meus, leigos, que nem são ligados com cinema, e saem do filme falando que a fotografia estava escura. Eu falo: ‘Deus, o público sabe que é ruim’. Isso me deixa puto. Pirataria é fato, o filme vai ser disponibizado na internet. E não vou ser eu quem vai colocar”.

“Eu quero comunicar, não estou pensando em dinheiro e público, eu tô pensando em tocar pessoas e atingi-las. Sou artista neste aspecto, não quero ganhar dinheiro, para ganhar dinheiro eu faço outras coisas. Não se vive de cinema no Brasil, apesar que eu gostaria que se vivesse. Sabe aqueles filmes que o cara fez com R$ 5 mil? Não se pagou ninguém, isso faz com os profissionais não ganhem, e eles deveriam ganhar e também faz com que as pessoas façam outras coisas para ter fonte de renda, como publicidade que eu faço, principalmente. Queria muito que cinema fosse minha principal fonte de renda e eu não precisasse fazer nada. É isso que é meu ponto. Juro que eu não sei se a pirataria ajuda ou atrapalha nisso tudo, tem uma lista de vantagens e desvantagens”.

“Em ‘2001’, do Kubric, o cara previu muita coisa: o computador, etc. Mas ele não previu o poder descentralizado, porque no filme é aquilo, a centralização. O Kubric não previu a internet e poderia ser aquele mundo, se não houvesse a rede. Ele previu que o computador ia tomar conta do ser humano, mas ele não previu que eu poderia acessar tudo o que eu quisesse e que eu poderia chegar a qualquer informação. Ele achava ainda que o poder estava centralizado numa cúpula, que era como era na época. E faz sentiodo, não é uma crítica. Acho interessante como o mundo prega peças na gente, na nossa cabeça. Se o ‘Tapa na Pantera’ tivesse passado na TV eu ia estar respondendo a ação judicial, o louco é que foi um território tão livre, que ninguém veio me procurar para isso, nem a Maria Alice.Tem gente que defende que o vídeo é apologia às drogas e tem gente que fala que é uma campanha anti-droga. Mas que veículo é tão potente, quanto a TV em outra época, que fez com que eu colocasse uma polêmica, espirituosa, e não gerasse uma aversão, uma censura?”.

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‘Todo cineasta interessante está de olho na internet’, diz Cacá Diegues

23 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Carlos Diegues é cineasta e ajudou a fundar o Cinema Novo na década de 50, no Brasil. Cacá, como é conhecido, filmou com outros diretores o famoso ‘Cinco Vezes Favela’ (1962), que traz diferentes situações passadas nestas comunidades. Atualmente, Cacá coordena o novo ‘Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos’, que vai trazer histórias criadas e realizadas por moradores de favelas do Rio de Janeiro. Esses jovens cineastas foram selecionados em cursos dados pelo próprio Cacá, Nelson Pereira dos Santos, Fernando Meirelles, Walter Salles e outros. A estreia do filme está prevista para o ano que vem. Carlos Diegues participou da resistência contra à ditadura militar, lançou muitos curtas e mais de 15 longas como ‘Deus é Brasileiro’, ‘Orfeu’, e ‘Tieta do Agreste’. Cacá possui um blog, em que novidades e entrevistas dadas pelo cineasta são colocadas. Ele foi nosso oitavo entrevistado.

Caca Diegues

“Baixar um filme é muito mais complicado do que baixar um livro ou uma música, mas o cinema vai pelo mesmo caminho irreversível. Aliás, já está indo através de iniciativas pioneiras, tanto na indústria (Disney, Warner e outras majors já têm seus serviços de download), assim como nas formas alternativas (como, por exemplo, o Creative Commons)”, disse por email.

“Todo cineasta interessante está de olho na internet. O YouTube, por exemplo, é um ninho de artistas que estão se multiplicando através dele e de outros serviços semelhantes. Um dos cineastas mais interessantes da nova geração, o paulista Esmir Filho, destacou-se e foi descoberto pelo público através de seu curta ‘Tapa na pantera’, postado há uns poucos anos. Hoje ele está no seu segundo longa-metragem, com muito sucesso”.

“A internet fragmentou a globalização. Isso quer dizer que continuamos a nos manifestar em tempo real para o mundo inteiro, mas essas manifestações não são mais espuma de uma mesma onda. Ao contrário do que se pensava na época de McLuhan, isso está destruindo a possibilidade de concentração na mão de uns poucos poderosos. Na economia do cinema, isso é uma novidade real”.

“A pirataria não é uma questão policial, e sim social. Ela é o resultado da maior agilidade, vontade e velocidade do consumo do que da produção. Nós temos que descobrir um modo de adaptar-nos a essa realidade e não continuar insistindo em simplesmente tentar bloqueá-la à força. Nenhuma lei no mundo é capaz de acabar com uma necessidade social”.

“É claro que sim [a cultura está sendo democratizada]. Hoje não se produz mais audiovisual apenas nos países centrais da Europa Ocidental e da América do Norte, como no passado, mas em todas as nações do mundo, de todos os continentes. Mais do que isso, não são apenas as elites culturais ou sociais desses países que o produzem, mas as mais diferentes camadas sociais de cada um deles. Como nas favelas e periferias brasileiras”.

* foto de flickr/deharris

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