‘Download legal está com dias contados. Pessoas não pagam pelo que é ofertado de graça’, diz John Ulhoa do Pato Fu

21 12 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

John Ulhoa é músico, guitarrista e líder da banda mineira Pato Fu. Além disso, Ulhoa é produtor musical, com trabalhos com Zélia Duncan, Arnaldo Antunes, entre outros. O Pato Fu lançou seu último álbum, ‘Daqui pro Futuro’, em agosto de 2007 de forma independente. A banda foi uma das primeiras a ter site e disponibilizar suas músicas para download legal e gratuito em MP3. Hoje, eles cuidam pessoalmente do site da banda e até criaram um outro endereço, o Pato Fu Extra!Extra!, para divulgar e também oferecer boa parte do conteúdo do último DVD da banda lançado neste ano. Em entrevista, por e-mail, John se revela bastante consciente em relação aos desafios e possibilidades do futuro da música na era digital e diz: “prefiro tentar me adaptar e aperfeiçoar esses novos meios do que lutar contra eles, isso seria perda de tempo”. John Ulhoa foi nosso vigésimo primeiro entrevistado.

“O encolhimento das gravadoras afetou todos os artistas, contratados ou não. Os contratados não vivem mais a época de ouro com grandes orçamentos de discos, videoclipes e coisas assim. E os não contratados buscam alternativas de sobrevivência e exposição fora de um mainstream cada vez mais reduzido”, pondera.

“Enxergo como algo irreversível (o compartilhamento de arquivos na internet), vamos ter que torná-lo positivo de alguma maneira, para artistas e usuários. Em minha opinião, até mesmo a venda de músicas em lojas de download legal está com os dias contados, as pessoas não pagam por aquilo que é ofertado de graça logo ali ao lado. Só consigo enxergar um futuro bom para os dois lados no streaming de música. Liberado, sem custo para o ouvinte, mas remunerado para os artistas pelos anunciantes dos sites. Exatamente como funciona uma rádio. Em breve, a tecnologia vai fazer as pessoas pararem de fazer download de músicas, vão simplesmente ouvir online. Se tudo isso estiver ali nos grandes portais, quem vai perder tempo procurando torrents?”, argumenta.

E continua: “Acho que a inocência dessa pirataria acaba de vez quando as pessoas começam a vender e têm lucro com o produto “ilegal”, deixa de ser uma troca entre amigos. Os artistas perdem (com a pirataria), mesmo que haja certa euforia independente com todas as possibilidades de divulgação, o fato é que a capacidade que a indústria fonográfica tinha, com todos seus defeitos, de lançar e sustentar novos artistas ainda não foi substituído e está longe de ser”.

“O resultado é que temos milhões de myspaces com artistas novos, mas quantos desses têm carreiras decentes na “vida real”? Muito menos que nos anos 90. É chato, mas o meio “indie-hit-de-internet” ainda não paga a conta do aluguel sem fazer a curva para o mainstream de tv e rádio, pelo menos aqui no Brasil. E, as gravadoras estão num ponto que não contratam quase ninguém. Mas prefiro tentar me adaptar e aperfeiçoar esses novos meios do que lutar contra eles, isso seria perda de tempo”, conclui.

Observação: Está entrevista foi originalmente publicada de forma integral no blog do caderno Link do Estadão em 06 de outubro de 2009, como parte de uma série de entrevistas realizadas por Bruno Galo (que mantém este projeto aqui em parceria com Livia Wachowiak) sobre o presente e o futuro da música na era digital. Apesar disso, está entrevista foi inicialmente pensada para fazer parte deste projeto. Por isso, enfim, ela está sendo publicada. Em 21 de outubro, John publicou o post “Aqui, já num era pra Internet tá funcionando?” em seu blog, que, de alguma forma, complementa o que ele diz nesta entrevista.

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‘A lei de direito autoral privilegia o intermediário, não o artista’, diz Sérgio Branco

23 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Sérgio Branco é advogado especializado em propriedade intelectual. Dá aulas na FGV do Rio de Janeiro e recentemente escreveu o livro ‘Direitos autorais’, que trata o conceito de direito autoral e de pirataria desde seus primórdios até os dias de hoje. Sérgio foi nosso vigésimo entrevistado.

Sérgio Branco

* divulgação

Eu tinha um professor que dizia que crise existe quando o velho não existe mais e o novo não existe ainda. E eu fico pensando sobre isso e acho que a gente vive mesmo um momento de crise no direito autoral atual porque as leis que existiam antes não são mais capazes de dar conta de todos problemas que vieram com a internet. Hoje em dia, a lei de direito autoral privilegia o intermediário, não o artista“, disse em entrevista feita por telefone.

“Isso tem sido muito, muito discutido [lei para enquadrar troca de arquivos como crime]. Há quem queira ver no código penal atual, no artigo 184, uma criminalização para este tipo de conduta. Eu acho esse tipo de interpretação absurda porque se a gente entende que compartilhamento de arquivos é uma conduta ilícita no âmbito penal, então o Brasil inteiro está cometendo crime. É absurdo a gente achar que todo mundo que compartilha arquivo merece ser processado criminalmente. Mas, há quem defenda isso”.

Eu acho que a gente está vivendo uma onda de recrudescimento, de tentativa de tornar os direitos autorais mais controlados e não mais flexíveis. É só ver o prazo [de duração dos direitos autorais]: ao longo do século XX, os EUA o aumentou inúmeras vezes. Pela Convenção de Berna , o prazo padrão precisa ser de pelo menos 50 anos depois da morte do autor”. Hoje, o Brasil dá 70 anos, a Comunidade Europeia dá 70, o México dá 100 anos. É regra geral: a vida do autor mais este período, exceto para obras fotográficas e audiovisuais”.

“A Lei de Direitos Autorais de 1973, que vigorou até 1998, permitia uma cópia integral de cada obra. Então quando a gente copiava um LP em fita cassete, podia fazer isso, não tinha problema nenhum. Até 1998 isso foi permitido e não havia maiores questionamentos sobre direito autoral porque a internet não era como é hoje. Era muito menos dinâmica, muito menos comunitária, ou passível de compartilhamento informal. A rede traz o direito autoral para o centro da discussão e a lei dá um passo para trás e proíbe a cópia integral, permitindo só a cópia de pequenos trechos e, paralelamente a isso, a tecnologia permite cópias cada vez melhores, com mais facilidades, cada vez mais baratas. E aí sim o direito autoral se torna importante porque diante da internet todos nós copiamos, modificamos, publicamos, divulgamos nossos textos, nossas fotos, nossos filmes, nossas músicas. O direito autoral, que era um direito marginal, passa a ser um direito central na vida de todo mundo”.

“A internet acaba gerando dois efeitos opostos: como é muito fácil copiar, a sociedade quer ter acesso, mas os titulares de direito querem proteger os produtos cada vez mais. Para isso, eles começam a processar, a ideia de criar uma política do medo, de repressão: processar para dar exemplo. E já se viu que nos EUA não adiantou nada, podia processar quem fosse, as pessoas continuaram baixando música, copiando tudo, não mudou o comportamento da sociedade e acho muito difícil mudar. Acho que o embate vai continuar existindo”.

“Hoje nós, sem dúvida, temos um problema legislativo e também um administrativo, há um problema de modelo de negócio. E mudar uma lei é muito mais difícil que mudar o modelo de negócio. A lei precisa do Congresso disposto a mudar, precisa enfrentar lobby da indústria editorial, cinematográfica, musical, então mudar uma lei é muito difícil. É mais fácil mudar o modelo de negócio. Então, nós tivemos uma crise dos dois lados só que a indústria conseguiria resolver um deles, que é o que está ao alcance dela”.

O direito autoral existe, teoricamente, para financiar o autor, para remunerá-lo e gerar um incentivo para ele continuar criando. O prazo de 70 anos não serve para estimular o autor porque ele terá morrido quando esse período começar a valer. Isso, acaba gerando um direito para os herdeiros, que muitas vezes, é um direito mal utilizado porque enquanto a obra não cai em domínio público ninguém pode fazer uso dela. Se os herdeiros se recusam a republicar a obra, por exemplo, ela fica fora do alcance da sociedade. Então é um prazo absurdo que só interessa aos intermediários e não aos autores. Quando aumentaram o prazo do Mickey (os direitos do ratinho venceriam em 1998 e agora vão até 2023) carregaram junto toda a cultura dos anos 30, que entraria em domínio público”. É que não dá para a lei ser específica e dizer: ‘olha, só o Mickey que não vai cair em domínio público’. A lei é abstrata e aí se carrega toda a cultura e, nisso, vai música que está sendo esquecida, película de filme sendo destruída, vai junto uma série de obras que não têm mais valor econômicos, mas que poderiam ser reaproveitadas em outras obras e isso é retirado da sociedade”.

“A internet fez as pessoas repensarem os direitos autorais. Há uma série de dificuldades na aplicação da lei que não haviam antes. Acho que o Creative Commons é uma das possíveis soluções e não é definitiva porque adere ao CC quem quer. De toda forma, acho que a lei vai continuar existindo, mas acho que é preciso repensá-la. Os direitos autorais não morrem, só devem ser repensados. A discussão em torno da lei sempre foi feita, o direito autoral na antiguidade era um, na época da prensa de Gutemberg teve que mudar, no século XX teve que mudar de novo, e agora no século XXI vai ter que mudar outra vez”.

“[o projeto de lei para desconectar usuários] é um absurdo, isso viola a privacidade do consumidor. E o compartilhamento pode ter usos totalmente lícitos. Também não há nenhum estudo que comprove, terminantemente, que o compartilhamento de arquivos é algo prejudicial. Outro problema, pode existir uma finalidade para aquela cópia: é com fim didático? é para dar aula? é para dar aula de quê forma, para quem? usar em asilo? Esses usos não são previstos pela nossa lei, mas se a gente faz uma interpretação em conjunto com outra, a gente pode chegar a essas conclusões. Alguns usos deveriam ser permitidos, então simplesmente desconectar uma pessoa é infringir direitos que essa pessoa tem”.

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‘Tratar o público como bandido foi algo suicida’, diz João Marcello Bôscoli

22 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

João Marcello Bôscoli é músico, empresário e presidente da Trama, uma empresa de música, nas suas próprias palavras, que disponibiliza canções para baixar ou ouvir por streaming sem nenhum ônus para o internauta. No entanto, o músico recebe pagamento conforme seu trabalho é ouvido (o dinheiro vem de patrôcínio). A Trama tem, entre outras, composições do Cansei de Ser Sexy, Fernanda Porto, Elis Regina e Móveis Coloniais de Acaju. Ele prepara 400 álbuns produzidos pela empresa para ser oferecidos de graça pela internet em 2010. Bôscoli foi nosso décimo nono entrevistado.

João Marcello Bôscoli

* divulgação

“Ganhamos muitas possibilidades [com a internet] porque deixamos de precisar de intermediários para publicar e divulgar nossas obras. Quando publicamos o livro [Cultura Livre, do Lawrence Lessig] do Creative Commons, aprendi mais uma série de coisas e percebi que nossa política de liberar tudo, sem controles de cópias (DRM) estava correta ou mesmo a inclusão de um cd-r virgem no primeiro álbum do Cansei de Ser Sexy eram decisões corretas. Sem a web, estaríamos fritos“, disse em entrevista por email.

“[Processar o Napster foi] Completamente equivocado e irracional. Perderam o passo da história completamente. Tratar o público como bandido foi algo suicida“.

“Nossa receita vem de várias fontes: patrocínio de marcas, editora de música, licenciamento, agenciamento de artistas, vendas de cds, dvds e vinis. Nosso futuro será sempre ligado à música“.

“Logicamente não há fórmulas [para um músico iniciante], mas sem tocar ao vivo regularmente e usar a web como instrumento de promoção, fica muito difícil avançar. E sem público, ou seja, alguém pra ouvir, a música não evolui. E o fã, historicamente tem um papel importante na difusão da obra do seu artista querido“.

“Troca de arquivos não é crime. As leis estão obsoletas, tal qual quando o rádio começou”.

“As gravadoras, naquele modelo tradicional que ficou conhecido, já se foram. Pessoalmente, nunca abri uma gravadora. Quando compramos pesquisas antes de abrir a Trama, já era líquido e certo a obsolescência do formato. Abrimos uma empresa de música. Tanto que primeira compra foi uma mesa de som e montamos os estúdios antes dos escritórios”.

Na área da música, desde o início do século passado, a maior parte ouvida sempre foi de graça e no futuro continuará assim“.

“[estamos de alguma forma vivendo a ‘democratização’ da cultura?] Sim, claro. Nunca foi tão barato produzir música. Além disso, com a web, qualquer pessoa pode publicar sua obra livremente sem perguntar nada pra ninguém. É uma bela época“.

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‘Para mim e para uma geração inteira, a internet é a possibilidade de existir no mercado’, diz O Teatro Mágico

14 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Fundado em 2003, O Teatro Mágico é um conjunto independente até hoje: nunca assinou com gravadora e se tornou conhecido pela rede. O grupo de Osasco já lançou dois CDs e um DVD, produzidos pela própria banda, e vendeu cerca de 85 mil cópias (os álbuns são sempre vendidos a preços entre R$ 5 e R$ 15). O Teatro disponibiliza suas músicas (de graça) no site da Trama Virtual, mantém um site que tem uma loja com camisetas e itens para os fãs, além de um perfil no MySpace, no Twiiter e no YouTube. A trupe, que têm acrobatas, palhaços, e claro, músicos, foi nossa décima quinta entrevistada.

O Teatro Mágico | Parque da Uva

*foto de flickr.com/alexandrechang

Para mim e para uma geração inteira de músicos, atores, artistas plásticos, produtores culturais a internet é a possibilidade de a gente existir no mercado. Até então, a gente precisava do bom humor de alguém de uma rádio, da televisão para colocar você alguns minutos no meio de uma programação furada. Na verdade, a internet é uma maneira democrática de tornar acessível os bens culturais a todas as pessoas e isso só traz benefícios para quem é músico a alcançar outros patamares, outro público e muitas vezes a gente jamais conseguiria”, disse Fernando Anitelli em entrevista por telefone.

O ser humano é assim, ele compartilha coisas que ele acha interessante, conceitos novos, isso é natural. Agora querem criminalizar esse hábito, isso não faz nenhum sentido, isso é incoerente. Então, para muitos autores novos a internet passou a ser um campo onde você pode minimamente gravar as idéias do seu trabalho, pode montar seu blog, pode ter sua biblioteca de fotos, de vídeos, tudo isso de maneira gratuita. Hoje, o artista tem que aprender a ser o gestor da sua própria obra, tem que parar com esta coisa de que a gravadora vai aparecer com um sapatinho de cristal e vai colocar o cara em um programa dominical para fazer sucesso. Isso não existe. O artista tem que trabalhar diariamente com seu público para fazer um trabalho com bom conteúdo, para ter o que colocar, o que falar, o que debater“.

“A gente está encabeçando um movimento de MPB, que é um movimento de Música Para Baixar e que propõe uma flexibilização na questão dos direitos autorais, mas o autor não perde o direito autoral dele. A gente tem que brigar para que ninguém seja taxado para ouvir uma música, inclusive eu sou taxado para tocar a minha música. Porque hoje, o ECAD multa O Teatro Mágico se não avisarmos com 15 dias ou 1 mês de antecedência onde vamos vai estar e quais músicas vamos tocar. Então, se o público pede um bis de uma música que eu não classifiquei, se eu tocar estou cometendo um crime. Quer dizer, um crime comigo mesmo porque eu estou tocando minha própria música. Isso é um absurdo, uma postura equivocada das instituições que se traduzem como defensoras dos músicos e da produção cultural no país. A gente quer ter a chance de debater e formar e informar novos consumidores da música, novos produtores de cultura, é isso”.

“Eu já fiz parte de uma gravadora, há uns 10 anos e caí no conto do vigário porque disseram que eu poderia gravar meu material e minha música tocaria nas rádios, o que não era aquilo. Quando a gente estava gravando a oitava música, o dono da gravadora veio e falou: ‘grava tudo agora em formato de forró, que a moda é essa’. Eles estavam preocupados com o dinheiro, só isso. Enquanto no final da ponta tinha alguém preocupado em conceber uma música, uma experimentação traduzidas com poesias, arranjos e musicalidade. Então, hoje o músico pode ter muito mais liberdade no seu trabalho, muito mais autonomia na concepção das suas coisas, na divulgação, ele é capaz de conhecer seu público, criar comunidades para isso”.

Quem cuida do artista é o próprio público. O maior tesouro do artista é o público. Nos dias atuais, como sempre deveria ter sido, o artista tem que ficar frente a frente com o público. Tem que conversar e fazer o trabalho de formiguinha. Até hoje quando O Teatro Mágico vai a alguma cidade, a gente conversa com uma rádioweb, vai na rádio de faculdade, fala com fanzine, com comunidade local, com a Globo, com o SBT. A gente também não pode deixar de se articular nos meios, nas mídias já convencionais. Até porque são concessões que o estado fornece, ou seja, de uma certa maneira isso tudo já é nosso e deveria ser trabalhado para o público, mas não é isso que acontece”.

“[a troca de arquivos não é pirataria] O fã não é pirata. A música é livre, não é caridade, não é doação, é acesso aos bens culturais. A pirataria é pegar o seu trabalho e revender por um preço menor e aí a sacanagem começa. O Teatro Mágico tem sua música livre na internet, mas vende CD por R$ 5 (com um encarte melhorado por R$ 10) e o DVD por R$ 15. E a gente tem a prova que as pessoas baixam de graça na internet e quando vão no show compram o material, eles sabem que o músico precisa daquilo. Além do que, aquilo não está sendo empurrado goela abaixo para ele. Fã é o divulgador, o co-produtor que vai sempre nos ajudar num momento difícil. É o público que vai dar sobrevida para o artista. A gente tem que valorizar justamente essa ponta da cadeia produtiva e não a gravadora que tem um monte de dinheiro e está interessada em fazer mais dinheiro”.

“A música não pode ser só um produto, ela é um presente de celebração, ela é algo muito mais mágico e imaterial que estão imaginando. Então, tratar a música como um pedaço de cadeira, que é um objeto que você usa, gasta e aquilo morre, está equivocado porque quanto mais se ouve a música, mais ela se torna famosa. O cara que trabalhava fazendo o marketing do nazismo disse que uma mentira contada mil vezes se torna uma verdade. Num paralelo com a música, uma música ruim tocada mil vezes se torna um sucesso. Você acaba acreditando que o que tem de cultura no nosso país é isso que estão mostrando. Então a gente tem que parar com essa comodidade de achar que o que é colocado para a gente é o que nos resta, o que nos sobra, porque não é isso”.

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‘A maioria das práticas de hoje coloca as pessoas na ilegalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria’, diz André Lemos

5 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Lemos é PhD em sociologia e professor da Universidade Federal da Bahia. É pesquisador da área e autor dos livros ‘Olhares sobre a Cibercultura’, ‘Cibercultura’, entre outros títulos. Lemos mantém um site e também uma conta no Twitter e acredita no potencial de transformação que as ferramentas digitais vão trazer para o mercado cultural. Ele foi nosso décimo quarto entrevistado.

Andre Lemos

A gente tem hoje dois sistemas funcionando em extensão, um que é a indústria cultural clássica, passiva, que tem um processo de adequar produtos a uma massa de espectadores, ouvintes, e outro que é um processo mais conversacional, transversal, de baixo para cima, que está provocando algumas mudanças e reações na indústria. Eu acho que para o usuário e para o produtor, artista, músicos em geral, esses sistemas são muito positivos porque oferecem duas instâncias, uma mais passiva e outra mais aberta, mais tranversal em que se tem a possibilidade de controlar todo o processo produtivo, não sendo apenas um receptor, mas também um produtor ativo de conteúdo. Eu vejo para a paisagem comunicacional e para a cultura contemporânea um avanço considerável porque essa tensão é benéfica para todos”, disse em entrevista feita por telefone.

“Antes se comprava um LP, um CD todo, agora você pode comprar uma música e isso já agrega uma adaptação aos novos tempos. A partir do momento que a maioria das práticas exercidas hoje no mundo coloca as pessoas na ilegalidade, marginalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria é porque alguma coisa está errada. Você não pode transformar toda uma população de usários em marginais. Se isso acontece é porque tem alguma coisa esquisita, elas [as empresas] têm condições, dinheiro e massa cinzenta para buscar novas alternativas. Não querem fazer isso ainda porque isso significa uma mudança efetiva na margem de lucro, nos negócios, mas a longo prazo, acredito que vamos ver aparecer por aí muitos formatos diferenciados, como já vemos algumas gravadoras virtuais, editoras de livros de ebooks, essas coisas começam a aparecer e mostram esse impacto”.

“Em todas as áreas estamos tendo mudanças, talvez na área da música e na distribuição de imagens tenha sido com mais impacto. Mas no fundo, eu acho que o que caracteriza essas transformações é a possibilidade de as pessoas poderem produzir, de consumir, distribuir informação. Isso é a base e é o que está na estrutura da rede. Esse poder de produzir obras com a participação e colaboração de outros, que era o mais complicado e difícil”.

“[Os artistas devem] tentar utilizar ao máximo os dois sistemas. Eu não tenho uma visão muito purista de achar que você tem que partir para um lado totalmente alternativo. Eu acho que a depender da sua colocação no universo onde você insere (vídeo, música, cinema) é importante, assim como transitar por todos os sistemas, desde uma grande gravadora até disponibilizar suas músicas em sites sociais e criar seu nicho. Eu acho que o artista começando hoje deveria atacar em todas as frentes, tentar todas as frentes e saber o que se pode ganhar em cada uma delas. O sistema mesmo vai tentar se organizar a partir desta dinâmica, é importante que tenham pessoas que possam disponibilizar as suas obras de maneira mais livre e participativa, mas que também possam viver da sua obra, seja com shows e outros produtos agregados a sua obra. Acho que o artista hoje tem muito mais possibilidades de fazer valer seu trabalho do que quando ele era centralizado por uma indústria que não poderia acolher a todos. Hoje, com essas plataformas, você tem a possibilidade de existir e viver do seu trabalho“.

As mídias nunca são universais. Quando se fala em democratização, se pensa em universalização do acesso. De forma comparativa, a internet é muito mais democrática que os outros meios porque ela permite que você produza e distribua informação livremente com poucos recursos e sem concessão do Estado. Hoje se pode ter um veículo de comunicação usando um local público, pagando pouco ou tendo essas ferramentas em casa. Obviamente ela não é universal por causa do acesso, que ainda é um problema em vários países, inclusive no Brasil. O tempo que a internet demorou para atingir 50 milhões de usuários foi muito mais rápido que as outras mídias demoraram para fazer o mesmo. Temos aí um processo que temos que aproveitar politicamente e socialmente também. Num país como o nosso, carente de muitas coisas, essas tecnologias são importantes para dinamizar a cultura e a economia”.

* foto de flickr.com/lufreitas

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‘Pirataria é uma parte das consequências do acesso fácil a bens culturais’, diz Marcelo Carvalho

30 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Carvalho é filósofo e nos deu aula no curso de jornalismo, na Metodista. Atualmente, ele trabalha na Unifesp e Ufscar e foi procurado para conversar conosco porque sempre levava filmes (interessantíssimos) para as aulas, que eram na maioria “pirateados”, baixados da rede. Por ser filósofo, ele sempre tinha uma resposta à mão e argumentos que nos faziam repensar o conceito de pirataria. Marcelo foi nosso décimo segundo entrevistado.

Marcelo Carvalho

* foto de divulgação

“[As mudanças surgidas pelas tecnologias digitais] são positivas em todos os aspectos que você pensar. A grande transformação está nas mídias, nos meios de transporte e nos meios de acesso da cultura. Todo desenvolvimento de mídia deste período tem como impacto fundamental a facilidade do acesso, a ampliação do acesso, o barateamento dos bens culturais. Não vejo algo de negativo neste processo, pelo contrário. O que eles chamam de pirataria é uma expressão, uma parte das consequências da facilidade de acesso a bens culturais que implica uma mudança no formato do acesso a cultura, mas os envolvidos vão se incomodar, vão fazer um ajuste para baratear o processo, ganhar agilidade, ganhar amplitude”, disse em entrevista por telefone.

“Posso contar minha carreira de pirata? O releaselog.net atualiza hora a hora os links das cópias que foram lançadas para baixar. Tem filmes que estão entrando no Brasil hoje e que eu já assistis há um ano, um ano e meio. Eu sou um consumidor enorme deste tipo de coisa e você não vai me convencer a esperar um ano e meio para ver o filme. Quem está produzindo o filme que tem que resolver um problema de estrutura de distribuição. Enquanto eles não resolverem, eles vão perder a oportunidade que eu mantenha um tipo de relação direta com eles. Na verdade, pessoas como eu são o sonho dessas empresas porque são pessoas que acompanham tudo isso. Eu pago de certa maneira por isso, pois pago as minhas conexões e certamente se eles oferecessem outras opções e plataformas eu optaria por elas. Não tem nada ver essa história de criminalização, eu acho isso um equívoco, é preciso rever esta plataforma para que justamente se atenda a este tipo de consumidor”.

“Não é pirataria, de maneira alguma. A música é mercadoria extremamente lucrativa, mas quando não se precisa mais do substrato material para ter acesso a canções, as gravadoras não sabem mais como fazer aquilo continuar sendo mercadoria. A subversão está nisso: era uma mercadoria extremamente lucrativa e de repente perde-se a oportunidade de retê-la como produto. É fabuloso para quem está olhando de fora para o problema das gravadoras, das editoras, pensar que aquilo que é cultura, livro, filme e música, de repente não é mais mercadoria e não se consegue mais domesticar aquilo. O que se abriu não foi a própria cultura, mas o acesso a ela, na época para ter acesso a cultura eu precisava comprar o objeto. Hoje, eu tenho que comprar o computador, o aparelho de som, há outras estruturas paralelas . Mas, isso não inviabiliza o negócio da indústria, por isso que acho que não é tão subversivo assim. Mas a indústria tem que se reinventar de outra forma, mas nem em sonho inviabiliza seu negócio. É um mercado bilionário…”

“Tem que gente que topa pagar [por arquivos na internet]. A Google, que é muito perspicaz na gestão destas coisas, está laçando uma estrutura de micro pagamentos nos EUA. Essas empresas vão cobrar de você pela velocidade do download e pela segurança. Você pode ter até acesso ao mesmo produto no mercado paralelo, mas sem essas garantias”.

“Quando eu tinha 18, 19 anos eu lia alguma coisa sobre música, um disco ou um cantor, e quando eu queria ouvir, eu tinha que juntar dinheiro ir a uma importadora, esperar três meses para chegar o produto. O acesso a cultura era caro e difícil e hoje, eu leio uma matéria, antes de terminá-la eu já estou ouvindo a música, tocando no meu computador. Isso faz com que a gente tenha acesso a uma pluralidade de experiências culturais muito grande. Essa é a grande novidade quando você barateia o acesso a rede (este acesso não é de graça nem para quem faz pirataria porque se paga a conexão ou a compra de um CD para piratear). O resultado disso é uma experiência mais aberta para a música, para a cultura em geral. Você deixa de ter acesso a conhecer poucas coisas porque elas passam a estar disponíveis em grande quantidade, o tempo todo. O grande problema passa a ser o inverso, ou seja, é você neste contexto enorme é poder selecionar e saber por onde você vai. Os fenômenos que surgem a partir da internet indicam que as pessoas têm caminhado por caminhos que não são mais controlados como eram antes por gravadoras“.

“A característica deste momento é de transição. Não há caminhos definidos, não há formas definidas. Então, você escapa da gravadora, mas é preciso ampliar o número de pessoas que acessam o site, sua música, e de alguma maneira os meios de comunicação convencionais continuam sendo muito fortes para isso. A alternativa que tem se construído são as redes sociais, que são uma versão contemporânea do ‘boca a boca’. [O fato de Paulo Coelho e Radiohead disponibilizarem seu material na internet não pode ser seguido] porque eles vêm de outra plataforma. Eles vêm de gravadora, de editora. A pergunta é a seguinte: suponha que o Paulo Coelho fosse o Paulo Coelho antes de lançar Brida, se ele publicasse seu material pela internet ele estourava do jeito que ele estourou? Provavelmente não. Quer dizer, tem toda uma estrutura de marketing atrás do lançamento, da figura, que ainda é garantia por editores. A mesma coisas vale para o Radiohead. Você tem uma estrutura tradicional que precede essa estrutura alternativa dada hoje”.

A estrutura convencional da música e do cinema ainda é muito lucrativa, então ainda não valeu a pena tirar o pé de dentro dela. Reclamam, choram, mas essa estrutura ainda é muito lucrativa e por isso essas empresas se mantém no negócio convencional, mas com o tempo isso vai mudar”.

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‘A divulgação da banda aumenta muito com a troca de arquivos pela internet’, diz Fresno

24 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Criada em Porto Alegre, em 1999, a Fresno resolveu vir para São Paulo em 2006. Em pouco tempo, a banda se tornou um “fenômeno cultural moderno de marketing virtual de guerrilha, mesmo que isso tenha sido “meio” sem querer”, brincam, no próprio site do grupo. A banda, que usou as ferramentas digitais para divulgar seu trabalho, já lançou cinco CDs e três DVDs (sendo um demo) e disponibiliza no site links para o MySpace, YouTube e Fotolog deles. A página traz também produtos como camisetas personalizadas, além de outras frentes como o ‘Fresno Clube’, que deve ser lançado em breve. Vavo, o guitarrista da banda, foi quem respondeu nossas perguntas. O Fresno foi nosso nono entrevistado.

Fresno

“Quando a banda começou, não dispúnhamos de muitas formas de divulgação. A televisão, o rádio, as revistas e os jornais estavam completamente fora do nosso alcance. Então, nos concentramos em divulgar nossas músicas na internet, uma ferramenta nova que estava em crescimento. Isso foi no início da década. Não foi algo premeditado, como pode-se ver. Simplesmente foi a única maneira “barata” de divulgação que encontramos“, disse Vavo por email.

“As mudanças dos últimos anos têm seus pontos positivos e negativos. Podemos destacar como pontos positivos a facilidade de divulgar uma música, o fácil e rápido acesso às músicas de qualquer lugar do mundo, a possibilidade de gravar um bom disco em casa para todos ouvirem sem que se precise de uma gravadora por trás disso. Atualmente têm muitas bandas boas por aí que talvez não fossem conseguir mostrar suas músicas antes das mudanças. A relação musico/gravadora realmente mudou. Agora, é preciso muito diálogo e trabalho de ambas as partes. Não adianta achar que a gravadora vai fazer tudo quando na verdade cobra-se cada vez mais uma relação muito próxima entre fã e artista“.

O fã é o maior patrimônio de uma banda. Sem fãs, não há banda. Os fãs vão aos shows, dizem o que acham das músicas, abrem teus olhos. Compram os discos, ouvem as músicas. E é pensando neles que fazemos tudo o que fazemos”.

“Se tu pode mandar um arquivo .pdf, .jpg ou .txt para um amigo, por que não pode mandar um .mp3? Ao mesmo tempo, isso infringe leis de direitos autorais. É necessário regulamentar isso. Aos poucos, parece que estão achando a solução. Nos Estados Unidos, as músicas são vendidas em sites como o iTunes. No Brasil, isso ainda está começando. A divulgação da banda aumenta muito com essa troca de arquivos pela internet, não dá para negar. As gravadoras podem deixar de ganhar dinheiro vendendo cds, mas ganham com o aumento da venda de shows. Tudo é relativo. É preciso achar um equilíbrio que todos ganhem com isso”.

* foto de flickr.com/gustavovara

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‘Quem baixa música é parceiro e não deve ser visto como criminoso’, diz Móveis Coloniais de Acaju


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