‘Os efeitos da web na literatura são insignificantes frente às possibilidades futuras’, diz Sérgio Rodrigues

4 08 2010

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

O jornalista, crítico literário e escritor Sérgio Rodrigues é autor de um ótimo blog sobre literatura, o Todoprosa, que virou até livro: Sobrescritos (Arquipélago Editorial, 2010), lançado este ano. Depois de passar pela revista eletrônica NoMínimo e o portal iG, o blog está hospedado hoje no site da revista Veja. Ali, o autor publica curiosidades etimológicas, críticas, dicas, impressões literárias, notícias sobre o mundo do livro, além de suas próprias criações. Entre outros livros, Rodrigues publicou “Elza, a Garota”, “O Homem que Matou o Escritor” e “As Sementes de Flowerville”. O escritor, que também está no Twitter, foi nosso vigésimo segundo entrevistado:

“A internet não causou uma revolução imediata. O meu trabalho como escritor mudou muito pouco. O meu trabalho como jornalista mudou muito mais. Ela criou uma interatividade muito grande. Ajudou na divulgação do meu nome, cria uma sinergia. Agora, em termos de liguagem, a web não mudou nada ainda. Talvez a longo prazo isso venha a acontecer. Novas formas de se contar histórias podem surgir mas ainda é tudo muito experimental. Os efeitos da internet na literatura são ainda insignificantes frente às possibilidades futuras. Mas há muitas coisas boas que a internet trouxe, como a facilidade de se encontrar livros raros, por exemplo”, começou dizendo Rodrigues, em entrevista por telefone.

E continuou: “Entendo que o livro de papel não vai desaparecer tão cedo, ele vai conviver por muito tempo com o eletrônico. Já a internet é um grande sarau, ela substitui com vantagens a cobertura da mídia tradicional, e isso é muito positivo. Os livros costumam repercutir pouco, vender mal. A internet permite, assim como as livrarias e as bibliotecas, que novos livros sejam descobertos. A universidade mesmo se prende aos clássicos. A internet valorizou a palavra escrita, ainda que haja adaptações. Meu filho escreve muito mais e para mim pouco importa se escreve com abreviações, não vejo nada de ruim nisso.”

“A indústria do livro, acredito, tem estado atenta a todo tipo de novidade. Com a disseminação do livro digital, no entanto, ela vai mudar dramaticamente nos próximos anos”, disse.

“É difícil planejar uma carreira. Isso vai sempre depender de cada pessoa. O que me parece obvio é que ninguém pode prescindir da internet. E isso é bastante natural para os mais jovens, embora o caminho seja, e continue, difícil. É preciso inteligência e criatividade para fazer diferente. Hoje é muito fácil fazer um blog, então isso cria um outro problema, talvez ainda maior, o de ser percebido. Ser percebido talvez seja tão difícil como antes e isso não é a grande panacéia dos escritores. O mais relevante é a discussão em torno do assunto e as possibilidades abertas que são maiores do que jamais foram. O CardosoOnline, por exemplo, foi um fenômeno do inicio da internet. Hoje seria mais difícil. A simples novidade já era assunto, notícia. Hoje muita gente faz isso.”

“(P2P), tecnicamente é pirataria, mas a questão dramática para mim parece ser outra. E é como ganhar dinheiro na era digital? Na música, para muitos artistas, isso se tornou impossível. Agora para um escritor é ainda mais complicado, o músico pode ganhar com shows. Já palestra é para poucos escritores. Mas para mim a uma questão filosófica mesmo, quer dizer a cultura, a palavra escrita perdeu seu valor? Mas daí achar que a pirataria vai acabar é ser ingênuo. Talvez tudo isso, possa ser até positivo ao obrigar as empresas a ter que oferecer mais do que o pirata.”

“Por mais que tente proteger isso, livros, músicas e filmes vão circular livremente e de graça pela internet. Viver de direito autoral, viver de ser escritor, é algo muito difícil. Outras coisas precisam entrar no bolo. Mesmo os maiores vendedores de livro fazem outras coisas. Esse circuito de palestras, eventos, cursos, está em expansão. E é uma opção em franco crescimento.”

“Democratização da cultura? Primeiro é preciso definir essa palavra. Mas o que vejo é uma difusão praticamente universal da informação, a fruição disso depende de uma base educacional que hoje é precária, o que é uma grande estupidez. Mas a ferramenta de divulgação (a internet) é imensa e isso é extremamente positivo”, conclui.

* Essa entrevista foi concedida em outubro de 2009, quando o livro-reportagem estava sendo feito. Devido a problemas de agenda, apenas conseguimos disponibilizá-la agora

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‘A lei de direito autoral privilegia o intermediário, não o artista’, diz Sérgio Branco

23 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Sérgio Branco é advogado especializado em propriedade intelectual. Dá aulas na FGV do Rio de Janeiro e recentemente escreveu o livro ‘Direitos autorais’, que trata o conceito de direito autoral e de pirataria desde seus primórdios até os dias de hoje. Sérgio foi nosso vigésimo entrevistado.

Sérgio Branco

* divulgação

Eu tinha um professor que dizia que crise existe quando o velho não existe mais e o novo não existe ainda. E eu fico pensando sobre isso e acho que a gente vive mesmo um momento de crise no direito autoral atual porque as leis que existiam antes não são mais capazes de dar conta de todos problemas que vieram com a internet. Hoje em dia, a lei de direito autoral privilegia o intermediário, não o artista“, disse em entrevista feita por telefone.

“Isso tem sido muito, muito discutido [lei para enquadrar troca de arquivos como crime]. Há quem queira ver no código penal atual, no artigo 184, uma criminalização para este tipo de conduta. Eu acho esse tipo de interpretação absurda porque se a gente entende que compartilhamento de arquivos é uma conduta ilícita no âmbito penal, então o Brasil inteiro está cometendo crime. É absurdo a gente achar que todo mundo que compartilha arquivo merece ser processado criminalmente. Mas, há quem defenda isso”.

Eu acho que a gente está vivendo uma onda de recrudescimento, de tentativa de tornar os direitos autorais mais controlados e não mais flexíveis. É só ver o prazo [de duração dos direitos autorais]: ao longo do século XX, os EUA o aumentou inúmeras vezes. Pela Convenção de Berna , o prazo padrão precisa ser de pelo menos 50 anos depois da morte do autor”. Hoje, o Brasil dá 70 anos, a Comunidade Europeia dá 70, o México dá 100 anos. É regra geral: a vida do autor mais este período, exceto para obras fotográficas e audiovisuais”.

“A Lei de Direitos Autorais de 1973, que vigorou até 1998, permitia uma cópia integral de cada obra. Então quando a gente copiava um LP em fita cassete, podia fazer isso, não tinha problema nenhum. Até 1998 isso foi permitido e não havia maiores questionamentos sobre direito autoral porque a internet não era como é hoje. Era muito menos dinâmica, muito menos comunitária, ou passível de compartilhamento informal. A rede traz o direito autoral para o centro da discussão e a lei dá um passo para trás e proíbe a cópia integral, permitindo só a cópia de pequenos trechos e, paralelamente a isso, a tecnologia permite cópias cada vez melhores, com mais facilidades, cada vez mais baratas. E aí sim o direito autoral se torna importante porque diante da internet todos nós copiamos, modificamos, publicamos, divulgamos nossos textos, nossas fotos, nossos filmes, nossas músicas. O direito autoral, que era um direito marginal, passa a ser um direito central na vida de todo mundo”.

“A internet acaba gerando dois efeitos opostos: como é muito fácil copiar, a sociedade quer ter acesso, mas os titulares de direito querem proteger os produtos cada vez mais. Para isso, eles começam a processar, a ideia de criar uma política do medo, de repressão: processar para dar exemplo. E já se viu que nos EUA não adiantou nada, podia processar quem fosse, as pessoas continuaram baixando música, copiando tudo, não mudou o comportamento da sociedade e acho muito difícil mudar. Acho que o embate vai continuar existindo”.

“Hoje nós, sem dúvida, temos um problema legislativo e também um administrativo, há um problema de modelo de negócio. E mudar uma lei é muito mais difícil que mudar o modelo de negócio. A lei precisa do Congresso disposto a mudar, precisa enfrentar lobby da indústria editorial, cinematográfica, musical, então mudar uma lei é muito difícil. É mais fácil mudar o modelo de negócio. Então, nós tivemos uma crise dos dois lados só que a indústria conseguiria resolver um deles, que é o que está ao alcance dela”.

O direito autoral existe, teoricamente, para financiar o autor, para remunerá-lo e gerar um incentivo para ele continuar criando. O prazo de 70 anos não serve para estimular o autor porque ele terá morrido quando esse período começar a valer. Isso, acaba gerando um direito para os herdeiros, que muitas vezes, é um direito mal utilizado porque enquanto a obra não cai em domínio público ninguém pode fazer uso dela. Se os herdeiros se recusam a republicar a obra, por exemplo, ela fica fora do alcance da sociedade. Então é um prazo absurdo que só interessa aos intermediários e não aos autores. Quando aumentaram o prazo do Mickey (os direitos do ratinho venceriam em 1998 e agora vão até 2023) carregaram junto toda a cultura dos anos 30, que entraria em domínio público”. É que não dá para a lei ser específica e dizer: ‘olha, só o Mickey que não vai cair em domínio público’. A lei é abstrata e aí se carrega toda a cultura e, nisso, vai música que está sendo esquecida, película de filme sendo destruída, vai junto uma série de obras que não têm mais valor econômicos, mas que poderiam ser reaproveitadas em outras obras e isso é retirado da sociedade”.

“A internet fez as pessoas repensarem os direitos autorais. Há uma série de dificuldades na aplicação da lei que não haviam antes. Acho que o Creative Commons é uma das possíveis soluções e não é definitiva porque adere ao CC quem quer. De toda forma, acho que a lei vai continuar existindo, mas acho que é preciso repensá-la. Os direitos autorais não morrem, só devem ser repensados. A discussão em torno da lei sempre foi feita, o direito autoral na antiguidade era um, na época da prensa de Gutemberg teve que mudar, no século XX teve que mudar de novo, e agora no século XXI vai ter que mudar outra vez”.

“[o projeto de lei para desconectar usuários] é um absurdo, isso viola a privacidade do consumidor. E o compartilhamento pode ter usos totalmente lícitos. Também não há nenhum estudo que comprove, terminantemente, que o compartilhamento de arquivos é algo prejudicial. Outro problema, pode existir uma finalidade para aquela cópia: é com fim didático? é para dar aula? é para dar aula de quê forma, para quem? usar em asilo? Esses usos não são previstos pela nossa lei, mas se a gente faz uma interpretação em conjunto com outra, a gente pode chegar a essas conclusões. Alguns usos deveriam ser permitidos, então simplesmente desconectar uma pessoa é infringir direitos que essa pessoa tem”.

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‘Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada’, diz Marcelo Duarte

21 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Duarte é jornalista, escritor e autor da famosa série de livros ‘O Guia dos Curiosos’. Duarte já trabalhou em diversos veículos e desde 1999 mantém sua editora, a Panda Books, um blog, entre outras atividades em meios de comunicação. Ele foi nosso décimo oitavo entrevistado.

Marcelo Duarte

*reprodução

“Demos uma pesquisada no mercado e achamos que somos a primeira editora que faz releases eletrônicos e entrevistas com autores. Nós fizemos um canal, dentro do nosso site, com trailers animados dos nossos livros, fazemos entrevistas com nossos autores. Também estamos no Twitter“, disse em entrevista por telefone.

“Hoje, as livrarias virtuais são importantes no país porque há pouquíssimas lojas físicas. É um problema do Brasil que a internet resolveu. Qualquer pessoa pode comprar um livro pela loja virtual”.

“A gente já descobriu autores por internet, já publicamos livros de blogueiros, temos hoje uma facilidade para convidar pessoas para divulgar os livros. Os novos talentos tinham mais dificuldade para encontrar uma editora que têm hoje. Hoje um blog bom, comentado, rapidamente chega aos ouvidos de uma editora. Então, neste ponto acho que foi muito benéfico para os dois lados: se consegue achar gente boa e o cara consegue achar a editora também“.

A primeira grande dificuldade é fazer o primeiro livro. É fazer um trabalho bom, de qualidade para conseguir lançar. Porque daí, se o trabalho é bom mesmo, ele aparece, o autor tem grande possibilidade de fazer carreira. É muita gente acha que tem uma ideia genial ou alguma coisa maravilhosa porque perguntou para o amigo, para o parente, às vezes não tem uma avaliação profissional. Então, quando pega uma editora, uma avaliação profissional, comercial tem gente que fica muito chateado e a gente é muito sincero. Tem que se pensar como negócio, às vezes a gente sabe que o livro é realmente bom, mas comercialmente não tem grande apelo“.

“Muitos que fazem blog dizem: ‘tive tantos acessos, então meu livro vai vender tudo isso’. Não é verdade, às vezes atrapalha. Se a pessoa tem todo o conteúdo à disposição na internet, tem um público cativo, por que as pessoas comprariam para ler as mesmas coisas? A gente tem livro, da Tati Bernardi que é blogueira de sucesso, mas quando fechamos com ela, nós pedimos textos inéditos”.

“Não sei, acho que é uma coisa muito distante ainda [a pirataria atingir os livros] se as pessoas vão ficar baixando livros e lendo na tela. Acho que se esse perigo tiver próximo, vão criar mecanismos para tentar evitá-lo porque isso seria o fim da indústria cultural. Não faz sentido para um escritor fazer um livro, gastar o tempo dele e não ganhar nada com isso. Seria do fim da indústria cultural“.

“Vai ter uma geração que vai se acostumar mais facilmente a esses leitores digitais e vai poder baixar livros para ler naqueles aparelhos, não digo que não. É uma nova forma de instituição, não é o fim da editora. É mais uma forma de distribuição”.

“[a cultura vem sendo democratizada?] Acho que ainda não. Isso é papo para pirata. Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada. Então vai democratizar distribuindo, mas os shows custam R$ 200? Isso não é democratizar, é se apropriar de alguma coisa que não te pertence. Eu acho que é só furto”.

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‘Não ver a internet como uma grande aliada seria um erro para qualquer um’, diz Carol Bensimon

16 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Carol Bensimon deixou a carreira de publicitária para ser escritora. Ela começou contribuindo com revistas literárias, um fanzine eletrônico e mantendo um blog. Carol já publicou dois livros: ‘Pó de Parede’ (Não Editora) e ‘Sinuca embaixo d’água’ (Companhia das Letras) e pode ser acompanhada por seu site e Twitter. Carol foi nossa décima sétima entrevistada.

Carol Bensimon

* foto de www.insanus.org

O meu trabalho nasceu na internet. Quero dizer, quando comecei a escrever, o melhor método de divulgação era mesmo pela rede. Comecei com fanzine por mail, tive blog desde cedo, escrevi para revistas literárias virtuais… essas são, na maioria das vezes, as únicas opções de um escritor iniciante.
Agora que pude passar finalmente ao suporte “livro”, que é, no fim das contas, o objetivo de todo mundo, a internet participa de uma maneira importante na divulgação das minhas obras, e no retorno que tenho dos leitores, seja porque escrevem em seus blogs comentários sobre os livros, seja porque colocam algo a respeito no twitter, seja porque me escrevem emails”, disse Carol em entrevista também feita por email.

“[as mudanças pelas quais a indústria literária vem passando são positivas ou negativas?] Positivas, é claro, ainda que a relação novas tecnologias e indústria do livro seja ainda meio tímida. Quanto ao poder e liberdade do escritor em relação às editoras, bem, não sei se é possível afirmar que haja mudança nesse sentido (até porque eu seria pretensiosa demais se fingisse saber exatamente como se passava anos atrás, ou décadas atrás). O que concordo, isso sim, é que o escritor de hoje participa mais ativamente de tudo que diz respeito ao seu livro. Não deixa mais simplesmente na mão de editora. Mas é claro que, no fim das contas, isso vai de cada um, da personalidade de cada escritor”.

“Não há um caminho único para todos. De qualquer modo, não ver a internet como uma grande aliada seria um erro para qualquer um. Quanto ao fã, sim, há um contato regular com alguns, e muitos retornos de gente que leu meus livros e que quer comentar, ou simplesmente dizer para mim o quanto aquela leitura foi importante. Isso é ótimo, é maravilhoso“.

“Não gosto muito de fazer previsões, mas acho que o livro, como objeto, ainda tem muito tempo de vida. A maioria das pessoas ainda tem uma resistência muito grande a ler em uma tela (sou uma delas). De qualquer forma, os direitos autorais não costumam ser a grande e única fonte de renda de um escritor, ao menos não no Brasil. Não consigo pensar nem em meia dúzia que podem se dar ao luxo de viver de direito autoral“.

“Sem dúvida. O desafio agora é lidar com tanta informação. Mês passado, em São Paulo, vi uma série de telas instaladas em elevadores de prédios comerciais e hotéis, dando as notícias do dia, as cotações cambiais e etc. Achei aquilo o perfeito reflexo do nosso tempo. Me dá medo. Será que não podemos passar 10 segundos sem receber nenhum tipo de informação?

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‘A maioria das práticas de hoje coloca as pessoas na ilegalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria’, diz André Lemos

5 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Lemos é PhD em sociologia e professor da Universidade Federal da Bahia. É pesquisador da área e autor dos livros ‘Olhares sobre a Cibercultura’, ‘Cibercultura’, entre outros títulos. Lemos mantém um site e também uma conta no Twitter e acredita no potencial de transformação que as ferramentas digitais vão trazer para o mercado cultural. Ele foi nosso décimo quarto entrevistado.

Andre Lemos

A gente tem hoje dois sistemas funcionando em extensão, um que é a indústria cultural clássica, passiva, que tem um processo de adequar produtos a uma massa de espectadores, ouvintes, e outro que é um processo mais conversacional, transversal, de baixo para cima, que está provocando algumas mudanças e reações na indústria. Eu acho que para o usuário e para o produtor, artista, músicos em geral, esses sistemas são muito positivos porque oferecem duas instâncias, uma mais passiva e outra mais aberta, mais tranversal em que se tem a possibilidade de controlar todo o processo produtivo, não sendo apenas um receptor, mas também um produtor ativo de conteúdo. Eu vejo para a paisagem comunicacional e para a cultura contemporânea um avanço considerável porque essa tensão é benéfica para todos”, disse em entrevista feita por telefone.

“Antes se comprava um LP, um CD todo, agora você pode comprar uma música e isso já agrega uma adaptação aos novos tempos. A partir do momento que a maioria das práticas exercidas hoje no mundo coloca as pessoas na ilegalidade, marginalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria é porque alguma coisa está errada. Você não pode transformar toda uma população de usários em marginais. Se isso acontece é porque tem alguma coisa esquisita, elas [as empresas] têm condições, dinheiro e massa cinzenta para buscar novas alternativas. Não querem fazer isso ainda porque isso significa uma mudança efetiva na margem de lucro, nos negócios, mas a longo prazo, acredito que vamos ver aparecer por aí muitos formatos diferenciados, como já vemos algumas gravadoras virtuais, editoras de livros de ebooks, essas coisas começam a aparecer e mostram esse impacto”.

“Em todas as áreas estamos tendo mudanças, talvez na área da música e na distribuição de imagens tenha sido com mais impacto. Mas no fundo, eu acho que o que caracteriza essas transformações é a possibilidade de as pessoas poderem produzir, de consumir, distribuir informação. Isso é a base e é o que está na estrutura da rede. Esse poder de produzir obras com a participação e colaboração de outros, que era o mais complicado e difícil”.

“[Os artistas devem] tentar utilizar ao máximo os dois sistemas. Eu não tenho uma visão muito purista de achar que você tem que partir para um lado totalmente alternativo. Eu acho que a depender da sua colocação no universo onde você insere (vídeo, música, cinema) é importante, assim como transitar por todos os sistemas, desde uma grande gravadora até disponibilizar suas músicas em sites sociais e criar seu nicho. Eu acho que o artista começando hoje deveria atacar em todas as frentes, tentar todas as frentes e saber o que se pode ganhar em cada uma delas. O sistema mesmo vai tentar se organizar a partir desta dinâmica, é importante que tenham pessoas que possam disponibilizar as suas obras de maneira mais livre e participativa, mas que também possam viver da sua obra, seja com shows e outros produtos agregados a sua obra. Acho que o artista hoje tem muito mais possibilidades de fazer valer seu trabalho do que quando ele era centralizado por uma indústria que não poderia acolher a todos. Hoje, com essas plataformas, você tem a possibilidade de existir e viver do seu trabalho“.

As mídias nunca são universais. Quando se fala em democratização, se pensa em universalização do acesso. De forma comparativa, a internet é muito mais democrática que os outros meios porque ela permite que você produza e distribua informação livremente com poucos recursos e sem concessão do Estado. Hoje se pode ter um veículo de comunicação usando um local público, pagando pouco ou tendo essas ferramentas em casa. Obviamente ela não é universal por causa do acesso, que ainda é um problema em vários países, inclusive no Brasil. O tempo que a internet demorou para atingir 50 milhões de usuários foi muito mais rápido que as outras mídias demoraram para fazer o mesmo. Temos aí um processo que temos que aproveitar politicamente e socialmente também. Num país como o nosso, carente de muitas coisas, essas tecnologias são importantes para dinamizar a cultura e a economia”.

* foto de flickr.com/lufreitas

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‘O livro nunca foi produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema’, diz Cardoso

2 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Czarnobai, ou Cardoso, é autor do livro ‘Cavernas & Concubinas’, lançado em 2005 pela DBA Editora. O escritor e jornalista desempenha multifunções: é consultor criativo (ajuda empresas a desenvolverem produtos de comunicação para internet, filmes, TV, revistas), roteirista, produtor musical, co-fundador (com Daniel Galera) do CardosOnline (fanzine que circulou por email entre 1998 e 2001, e que também revelou nomes como Clarah Averbuck e Daniel Pellizzari). Cardoso, que afirmou ter usado a internet em 99% do tempo em “EMPIRISMO FREESTYLE”, pode ser acompanhado em seu site, blog e no Twitter. Ele foi nosso décimo terceiro entrevistado.

Cardoso
*foto de divulgação

A internet, na verdade, serve como um grande POTENCIALIZADOR: encurta distâncias, aumenta a rede (de consumidores, divulgadores e comparsas) e reduz radicalmente o tempo necessário para que as coisas aconteçam. Mesmo assim, prefiro acreditar que, independente da internet, as mesmas coisas acabariam acontecendo na minha vida – mas provavelmente demorariam bem mais para acontecer. Não posso dizer que o uso da web foi algo totalmente intencional porque comecei a usá-la justamente quando ela surgiu comercialmente no Brasil, por volta de 1996-97. Eu não tinha a idéia do que aconteceria – ninguém tinha. Ao longo dos anos, em um ou outro momento, é evidente que fiz um uso mais consciente de algumas de suas ferramentas visando algum objetivo bem específico, mas em geral te confesso que 99% das coisas que fiz foram embebidas do mais puro EMPIRISMO FREESTYLE”, disse em entrevista por email e seguindo seu estilo literário, Cardoso nos respondeu usando Caps Lock, de acordo com sua preferência.

“[As mudanças que o mercado editorial vem passando são] muito mais positivas que negativas! Mais gente lê e mais gente escreve: exatamente dois pré-requisitos fundamentais para que exista um mercado editorial. Dois dados interessantes sobre a Companhia das Letras, uma das principais editoras do país: em 2008 ela bateu seu próprio recorde de vendas, número que já foi superado em incríveis 13% só nesses primeiros 9 meses do ano. Ou seja, contrariando todas as expectativas, o mercado editorial está se fortificando. Quanto ao escritor ter mais liberdade ou poder, em relação especificamente às editoras acredito que isso não acontece. Nesse sentido a relação não mudou praticamente em nada. Quer dizer, editores ainda recebem, avaliam e (na maioria das vezes) recusam originais que chegam às suas mãos encadernados – não via e-mail ou links. Fora isso, a grande verdade é que liberdade o escritor sempre teve. Poder, talvez nunca (ou quase nunca). A literatura nunca foi um hábito de massa em nenhuma cultura O que o escritor de hoje realmente tem de diferente do escritor de 20 ou 30 anos atrás são duas coisas: 1) um número muito maior de veículos para sua obra, sejam blogs, sites literários, revistas, jornais ou editoras independentes; 2) facilidade muito maior de estabelecer e manter uma rede de contatos, tanto entre leitores como entre outros escritores. . Pode parecer pouca coisa, mas é o que faz toda a diferença. O resto é ilusão, afobação ou mau-caratismo”.

Os verdadeiros artistas não planejam suas carreiras. Eles simplesmente fazem aquilo que devem fazer. Um escritor vai criar um blog, abrir uma conta no twitter, imprimir 300 cópias de um livreto numa gráfica expressa, pendurar 50 cartazes nas paradas de uma determinada linha de ônibus. Fazer disso uma carreira não é o trabalho de um artista. A carreira vai sendo construída (ou não) ao longo da vida. A importância do fã, agora, é a mesma de antes. O que mudou aqui não foi a importância, apenas a relação. Hoje, um fã pode facilmente virar amigo do seu ídolo – e isso é muito ducaralho”.

“Troca de arquivos não é pirataria. Pirataria, pra mim, é apropriar-se de algo que não é seu e explorá-lo em busca de LUCRO. Ou seja, se eu baixo um filme que ainda não saiu no cinema, o assisto e até compartilho, não acho que isso seja pirataria. Se eu realmente gostar do filme, isso pode me levar a comprar um DVD com extras ou até mesmo ir ao cinema para vê-lo novamente numa tela maior, com um som mais legal. Mesmo se eu compartilhar esse arquivo numa rede p2p e outras 300 ou 400 pessoas tiverem acesso a ele, não acho que isso seja ruim para a indústria e para o artista. Pelo contrário: amplia a divulgação. Foda é o cara baixar um filme, fazer 500 cópias e vender a R$ 10 por aí”.

“[A cultura tem sido democratizada] sem sombra de dúvida. Mas não só pela natureza da internet em si: acho que essa democratização – ou seja, essa possibilidade de participação efetiva do POPULACHO – vem muito mais de uma política responsável de inclusão digital que qualquer coisa. Isso se traduz na queda dos preços de computadores, instalação de pontos de acesso e proliferação de lan houses, inclusive e principalmente nas periferias brasileiras (só na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, hoje são mais de 400)”.

“O público de literatura é muito diferenciado, e quando compra um livro na verdade adquire um pacote que vai além do conteúdo. Não dá pra comparar a literatura com a música e o cinema. São coisas muito diferentes, vendem produtos muito diferentes e têm públicos muito diferentes. Se na música existem uns poucos puristas que preferem ouvir seus discos de vinil e o cinema conta com uns heróis que fazem questão de freqüentar salas que usam projetores de película, a esmagadora maioria do público da literatura é afeita de todos os pormenores e rituais associados à leitura. Em outras palavras: quem gosta de ler em geral gosta não apenas do CONTEÚDO, mas também da FORMA. O cheiro do livro, a arte da capa, a MANCHA gráfica – e também a possibilidade de sentar embaixo de uma árvore, no assento de um avião ou até mesmo numa privada e apreciar a leitura. Além disso, há a questão do livro nunca ter sido produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema. Literatura sempre foi um mercado de nicho – um modelo que tende a se fortalecer nesse cenário fragmentado da era da internet. Em tempo: recentemente o TorrentFreak divulgou a lista dos 10 livros mais compartilhados via redes p2p de janeiro a setembro de 2009 – o único título de ficção era a série TWILIGHT. A série infanto-juvenil sobre vampiros aparecia em sétimo lugar, e isso nem de longe abalou suas vendas em todo o mundo – na casa dos MILHÕES. Resumindo: escritores não tem nada a temer”.

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‘Pirataria é uma parte das consequências do acesso fácil a bens culturais’, diz Marcelo Carvalho

30 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Carvalho é filósofo e nos deu aula no curso de jornalismo, na Metodista. Atualmente, ele trabalha na Unifesp e Ufscar e foi procurado para conversar conosco porque sempre levava filmes (interessantíssimos) para as aulas, que eram na maioria “pirateados”, baixados da rede. Por ser filósofo, ele sempre tinha uma resposta à mão e argumentos que nos faziam repensar o conceito de pirataria. Marcelo foi nosso décimo segundo entrevistado.

Marcelo Carvalho

* foto de divulgação

“[As mudanças surgidas pelas tecnologias digitais] são positivas em todos os aspectos que você pensar. A grande transformação está nas mídias, nos meios de transporte e nos meios de acesso da cultura. Todo desenvolvimento de mídia deste período tem como impacto fundamental a facilidade do acesso, a ampliação do acesso, o barateamento dos bens culturais. Não vejo algo de negativo neste processo, pelo contrário. O que eles chamam de pirataria é uma expressão, uma parte das consequências da facilidade de acesso a bens culturais que implica uma mudança no formato do acesso a cultura, mas os envolvidos vão se incomodar, vão fazer um ajuste para baratear o processo, ganhar agilidade, ganhar amplitude”, disse em entrevista por telefone.

“Posso contar minha carreira de pirata? O releaselog.net atualiza hora a hora os links das cópias que foram lançadas para baixar. Tem filmes que estão entrando no Brasil hoje e que eu já assistis há um ano, um ano e meio. Eu sou um consumidor enorme deste tipo de coisa e você não vai me convencer a esperar um ano e meio para ver o filme. Quem está produzindo o filme que tem que resolver um problema de estrutura de distribuição. Enquanto eles não resolverem, eles vão perder a oportunidade que eu mantenha um tipo de relação direta com eles. Na verdade, pessoas como eu são o sonho dessas empresas porque são pessoas que acompanham tudo isso. Eu pago de certa maneira por isso, pois pago as minhas conexões e certamente se eles oferecessem outras opções e plataformas eu optaria por elas. Não tem nada ver essa história de criminalização, eu acho isso um equívoco, é preciso rever esta plataforma para que justamente se atenda a este tipo de consumidor”.

“Não é pirataria, de maneira alguma. A música é mercadoria extremamente lucrativa, mas quando não se precisa mais do substrato material para ter acesso a canções, as gravadoras não sabem mais como fazer aquilo continuar sendo mercadoria. A subversão está nisso: era uma mercadoria extremamente lucrativa e de repente perde-se a oportunidade de retê-la como produto. É fabuloso para quem está olhando de fora para o problema das gravadoras, das editoras, pensar que aquilo que é cultura, livro, filme e música, de repente não é mais mercadoria e não se consegue mais domesticar aquilo. O que se abriu não foi a própria cultura, mas o acesso a ela, na época para ter acesso a cultura eu precisava comprar o objeto. Hoje, eu tenho que comprar o computador, o aparelho de som, há outras estruturas paralelas . Mas, isso não inviabiliza o negócio da indústria, por isso que acho que não é tão subversivo assim. Mas a indústria tem que se reinventar de outra forma, mas nem em sonho inviabiliza seu negócio. É um mercado bilionário…”

“Tem que gente que topa pagar [por arquivos na internet]. A Google, que é muito perspicaz na gestão destas coisas, está laçando uma estrutura de micro pagamentos nos EUA. Essas empresas vão cobrar de você pela velocidade do download e pela segurança. Você pode ter até acesso ao mesmo produto no mercado paralelo, mas sem essas garantias”.

“Quando eu tinha 18, 19 anos eu lia alguma coisa sobre música, um disco ou um cantor, e quando eu queria ouvir, eu tinha que juntar dinheiro ir a uma importadora, esperar três meses para chegar o produto. O acesso a cultura era caro e difícil e hoje, eu leio uma matéria, antes de terminá-la eu já estou ouvindo a música, tocando no meu computador. Isso faz com que a gente tenha acesso a uma pluralidade de experiências culturais muito grande. Essa é a grande novidade quando você barateia o acesso a rede (este acesso não é de graça nem para quem faz pirataria porque se paga a conexão ou a compra de um CD para piratear). O resultado disso é uma experiência mais aberta para a música, para a cultura em geral. Você deixa de ter acesso a conhecer poucas coisas porque elas passam a estar disponíveis em grande quantidade, o tempo todo. O grande problema passa a ser o inverso, ou seja, é você neste contexto enorme é poder selecionar e saber por onde você vai. Os fenômenos que surgem a partir da internet indicam que as pessoas têm caminhado por caminhos que não são mais controlados como eram antes por gravadoras“.

“A característica deste momento é de transição. Não há caminhos definidos, não há formas definidas. Então, você escapa da gravadora, mas é preciso ampliar o número de pessoas que acessam o site, sua música, e de alguma maneira os meios de comunicação convencionais continuam sendo muito fortes para isso. A alternativa que tem se construído são as redes sociais, que são uma versão contemporânea do ‘boca a boca’. [O fato de Paulo Coelho e Radiohead disponibilizarem seu material na internet não pode ser seguido] porque eles vêm de outra plataforma. Eles vêm de gravadora, de editora. A pergunta é a seguinte: suponha que o Paulo Coelho fosse o Paulo Coelho antes de lançar Brida, se ele publicasse seu material pela internet ele estourava do jeito que ele estourou? Provavelmente não. Quer dizer, tem toda uma estrutura de marketing atrás do lançamento, da figura, que ainda é garantia por editores. A mesma coisas vale para o Radiohead. Você tem uma estrutura tradicional que precede essa estrutura alternativa dada hoje”.

A estrutura convencional da música e do cinema ainda é muito lucrativa, então ainda não valeu a pena tirar o pé de dentro dela. Reclamam, choram, mas essa estrutura ainda é muito lucrativa e por isso essas empresas se mantém no negócio convencional, mas com o tempo isso vai mudar”.

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