‘A lei de direito autoral privilegia o intermediário, não o artista’, diz Sérgio Branco

23 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Sérgio Branco é advogado especializado em propriedade intelectual. Dá aulas na FGV do Rio de Janeiro e recentemente escreveu o livro ‘Direitos autorais’, que trata o conceito de direito autoral e de pirataria desde seus primórdios até os dias de hoje. Sérgio foi nosso vigésimo entrevistado.

Sérgio Branco

* divulgação

Eu tinha um professor que dizia que crise existe quando o velho não existe mais e o novo não existe ainda. E eu fico pensando sobre isso e acho que a gente vive mesmo um momento de crise no direito autoral atual porque as leis que existiam antes não são mais capazes de dar conta de todos problemas que vieram com a internet. Hoje em dia, a lei de direito autoral privilegia o intermediário, não o artista“, disse em entrevista feita por telefone.

“Isso tem sido muito, muito discutido [lei para enquadrar troca de arquivos como crime]. Há quem queira ver no código penal atual, no artigo 184, uma criminalização para este tipo de conduta. Eu acho esse tipo de interpretação absurda porque se a gente entende que compartilhamento de arquivos é uma conduta ilícita no âmbito penal, então o Brasil inteiro está cometendo crime. É absurdo a gente achar que todo mundo que compartilha arquivo merece ser processado criminalmente. Mas, há quem defenda isso”.

Eu acho que a gente está vivendo uma onda de recrudescimento, de tentativa de tornar os direitos autorais mais controlados e não mais flexíveis. É só ver o prazo [de duração dos direitos autorais]: ao longo do século XX, os EUA o aumentou inúmeras vezes. Pela Convenção de Berna , o prazo padrão precisa ser de pelo menos 50 anos depois da morte do autor”. Hoje, o Brasil dá 70 anos, a Comunidade Europeia dá 70, o México dá 100 anos. É regra geral: a vida do autor mais este período, exceto para obras fotográficas e audiovisuais”.

“A Lei de Direitos Autorais de 1973, que vigorou até 1998, permitia uma cópia integral de cada obra. Então quando a gente copiava um LP em fita cassete, podia fazer isso, não tinha problema nenhum. Até 1998 isso foi permitido e não havia maiores questionamentos sobre direito autoral porque a internet não era como é hoje. Era muito menos dinâmica, muito menos comunitária, ou passível de compartilhamento informal. A rede traz o direito autoral para o centro da discussão e a lei dá um passo para trás e proíbe a cópia integral, permitindo só a cópia de pequenos trechos e, paralelamente a isso, a tecnologia permite cópias cada vez melhores, com mais facilidades, cada vez mais baratas. E aí sim o direito autoral se torna importante porque diante da internet todos nós copiamos, modificamos, publicamos, divulgamos nossos textos, nossas fotos, nossos filmes, nossas músicas. O direito autoral, que era um direito marginal, passa a ser um direito central na vida de todo mundo”.

“A internet acaba gerando dois efeitos opostos: como é muito fácil copiar, a sociedade quer ter acesso, mas os titulares de direito querem proteger os produtos cada vez mais. Para isso, eles começam a processar, a ideia de criar uma política do medo, de repressão: processar para dar exemplo. E já se viu que nos EUA não adiantou nada, podia processar quem fosse, as pessoas continuaram baixando música, copiando tudo, não mudou o comportamento da sociedade e acho muito difícil mudar. Acho que o embate vai continuar existindo”.

“Hoje nós, sem dúvida, temos um problema legislativo e também um administrativo, há um problema de modelo de negócio. E mudar uma lei é muito mais difícil que mudar o modelo de negócio. A lei precisa do Congresso disposto a mudar, precisa enfrentar lobby da indústria editorial, cinematográfica, musical, então mudar uma lei é muito difícil. É mais fácil mudar o modelo de negócio. Então, nós tivemos uma crise dos dois lados só que a indústria conseguiria resolver um deles, que é o que está ao alcance dela”.

O direito autoral existe, teoricamente, para financiar o autor, para remunerá-lo e gerar um incentivo para ele continuar criando. O prazo de 70 anos não serve para estimular o autor porque ele terá morrido quando esse período começar a valer. Isso, acaba gerando um direito para os herdeiros, que muitas vezes, é um direito mal utilizado porque enquanto a obra não cai em domínio público ninguém pode fazer uso dela. Se os herdeiros se recusam a republicar a obra, por exemplo, ela fica fora do alcance da sociedade. Então é um prazo absurdo que só interessa aos intermediários e não aos autores. Quando aumentaram o prazo do Mickey (os direitos do ratinho venceriam em 1998 e agora vão até 2023) carregaram junto toda a cultura dos anos 30, que entraria em domínio público”. É que não dá para a lei ser específica e dizer: ‘olha, só o Mickey que não vai cair em domínio público’. A lei é abstrata e aí se carrega toda a cultura e, nisso, vai música que está sendo esquecida, película de filme sendo destruída, vai junto uma série de obras que não têm mais valor econômicos, mas que poderiam ser reaproveitadas em outras obras e isso é retirado da sociedade”.

“A internet fez as pessoas repensarem os direitos autorais. Há uma série de dificuldades na aplicação da lei que não haviam antes. Acho que o Creative Commons é uma das possíveis soluções e não é definitiva porque adere ao CC quem quer. De toda forma, acho que a lei vai continuar existindo, mas acho que é preciso repensá-la. Os direitos autorais não morrem, só devem ser repensados. A discussão em torno da lei sempre foi feita, o direito autoral na antiguidade era um, na época da prensa de Gutemberg teve que mudar, no século XX teve que mudar de novo, e agora no século XXI vai ter que mudar outra vez”.

“[o projeto de lei para desconectar usuários] é um absurdo, isso viola a privacidade do consumidor. E o compartilhamento pode ter usos totalmente lícitos. Também não há nenhum estudo que comprove, terminantemente, que o compartilhamento de arquivos é algo prejudicial. Outro problema, pode existir uma finalidade para aquela cópia: é com fim didático? é para dar aula? é para dar aula de quê forma, para quem? usar em asilo? Esses usos não são previstos pela nossa lei, mas se a gente faz uma interpretação em conjunto com outra, a gente pode chegar a essas conclusões. Alguns usos deveriam ser permitidos, então simplesmente desconectar uma pessoa é infringir direitos que essa pessoa tem”.

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‘A maioria das práticas de hoje coloca as pessoas na ilegalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria’, diz André Lemos

5 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Lemos é PhD em sociologia e professor da Universidade Federal da Bahia. É pesquisador da área e autor dos livros ‘Olhares sobre a Cibercultura’, ‘Cibercultura’, entre outros títulos. Lemos mantém um site e também uma conta no Twitter e acredita no potencial de transformação que as ferramentas digitais vão trazer para o mercado cultural. Ele foi nosso décimo quarto entrevistado.

Andre Lemos

A gente tem hoje dois sistemas funcionando em extensão, um que é a indústria cultural clássica, passiva, que tem um processo de adequar produtos a uma massa de espectadores, ouvintes, e outro que é um processo mais conversacional, transversal, de baixo para cima, que está provocando algumas mudanças e reações na indústria. Eu acho que para o usuário e para o produtor, artista, músicos em geral, esses sistemas são muito positivos porque oferecem duas instâncias, uma mais passiva e outra mais aberta, mais tranversal em que se tem a possibilidade de controlar todo o processo produtivo, não sendo apenas um receptor, mas também um produtor ativo de conteúdo. Eu vejo para a paisagem comunicacional e para a cultura contemporânea um avanço considerável porque essa tensão é benéfica para todos”, disse em entrevista feita por telefone.

“Antes se comprava um LP, um CD todo, agora você pode comprar uma música e isso já agrega uma adaptação aos novos tempos. A partir do momento que a maioria das práticas exercidas hoje no mundo coloca as pessoas na ilegalidade, marginalidade e transforma a criatividade juvenil em pirataria é porque alguma coisa está errada. Você não pode transformar toda uma população de usários em marginais. Se isso acontece é porque tem alguma coisa esquisita, elas [as empresas] têm condições, dinheiro e massa cinzenta para buscar novas alternativas. Não querem fazer isso ainda porque isso significa uma mudança efetiva na margem de lucro, nos negócios, mas a longo prazo, acredito que vamos ver aparecer por aí muitos formatos diferenciados, como já vemos algumas gravadoras virtuais, editoras de livros de ebooks, essas coisas começam a aparecer e mostram esse impacto”.

“Em todas as áreas estamos tendo mudanças, talvez na área da música e na distribuição de imagens tenha sido com mais impacto. Mas no fundo, eu acho que o que caracteriza essas transformações é a possibilidade de as pessoas poderem produzir, de consumir, distribuir informação. Isso é a base e é o que está na estrutura da rede. Esse poder de produzir obras com a participação e colaboração de outros, que era o mais complicado e difícil”.

“[Os artistas devem] tentar utilizar ao máximo os dois sistemas. Eu não tenho uma visão muito purista de achar que você tem que partir para um lado totalmente alternativo. Eu acho que a depender da sua colocação no universo onde você insere (vídeo, música, cinema) é importante, assim como transitar por todos os sistemas, desde uma grande gravadora até disponibilizar suas músicas em sites sociais e criar seu nicho. Eu acho que o artista começando hoje deveria atacar em todas as frentes, tentar todas as frentes e saber o que se pode ganhar em cada uma delas. O sistema mesmo vai tentar se organizar a partir desta dinâmica, é importante que tenham pessoas que possam disponibilizar as suas obras de maneira mais livre e participativa, mas que também possam viver da sua obra, seja com shows e outros produtos agregados a sua obra. Acho que o artista hoje tem muito mais possibilidades de fazer valer seu trabalho do que quando ele era centralizado por uma indústria que não poderia acolher a todos. Hoje, com essas plataformas, você tem a possibilidade de existir e viver do seu trabalho“.

As mídias nunca são universais. Quando se fala em democratização, se pensa em universalização do acesso. De forma comparativa, a internet é muito mais democrática que os outros meios porque ela permite que você produza e distribua informação livremente com poucos recursos e sem concessão do Estado. Hoje se pode ter um veículo de comunicação usando um local público, pagando pouco ou tendo essas ferramentas em casa. Obviamente ela não é universal por causa do acesso, que ainda é um problema em vários países, inclusive no Brasil. O tempo que a internet demorou para atingir 50 milhões de usuários foi muito mais rápido que as outras mídias demoraram para fazer o mesmo. Temos aí um processo que temos que aproveitar politicamente e socialmente também. Num país como o nosso, carente de muitas coisas, essas tecnologias são importantes para dinamizar a cultura e a economia”.

* foto de flickr.com/lufreitas

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‘Pirataria é uma parte das consequências do acesso fácil a bens culturais’, diz Marcelo Carvalho

30 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Carvalho é filósofo e nos deu aula no curso de jornalismo, na Metodista. Atualmente, ele trabalha na Unifesp e Ufscar e foi procurado para conversar conosco porque sempre levava filmes (interessantíssimos) para as aulas, que eram na maioria “pirateados”, baixados da rede. Por ser filósofo, ele sempre tinha uma resposta à mão e argumentos que nos faziam repensar o conceito de pirataria. Marcelo foi nosso décimo segundo entrevistado.

Marcelo Carvalho

* foto de divulgação

“[As mudanças surgidas pelas tecnologias digitais] são positivas em todos os aspectos que você pensar. A grande transformação está nas mídias, nos meios de transporte e nos meios de acesso da cultura. Todo desenvolvimento de mídia deste período tem como impacto fundamental a facilidade do acesso, a ampliação do acesso, o barateamento dos bens culturais. Não vejo algo de negativo neste processo, pelo contrário. O que eles chamam de pirataria é uma expressão, uma parte das consequências da facilidade de acesso a bens culturais que implica uma mudança no formato do acesso a cultura, mas os envolvidos vão se incomodar, vão fazer um ajuste para baratear o processo, ganhar agilidade, ganhar amplitude”, disse em entrevista por telefone.

“Posso contar minha carreira de pirata? O releaselog.net atualiza hora a hora os links das cópias que foram lançadas para baixar. Tem filmes que estão entrando no Brasil hoje e que eu já assistis há um ano, um ano e meio. Eu sou um consumidor enorme deste tipo de coisa e você não vai me convencer a esperar um ano e meio para ver o filme. Quem está produzindo o filme que tem que resolver um problema de estrutura de distribuição. Enquanto eles não resolverem, eles vão perder a oportunidade que eu mantenha um tipo de relação direta com eles. Na verdade, pessoas como eu são o sonho dessas empresas porque são pessoas que acompanham tudo isso. Eu pago de certa maneira por isso, pois pago as minhas conexões e certamente se eles oferecessem outras opções e plataformas eu optaria por elas. Não tem nada ver essa história de criminalização, eu acho isso um equívoco, é preciso rever esta plataforma para que justamente se atenda a este tipo de consumidor”.

“Não é pirataria, de maneira alguma. A música é mercadoria extremamente lucrativa, mas quando não se precisa mais do substrato material para ter acesso a canções, as gravadoras não sabem mais como fazer aquilo continuar sendo mercadoria. A subversão está nisso: era uma mercadoria extremamente lucrativa e de repente perde-se a oportunidade de retê-la como produto. É fabuloso para quem está olhando de fora para o problema das gravadoras, das editoras, pensar que aquilo que é cultura, livro, filme e música, de repente não é mais mercadoria e não se consegue mais domesticar aquilo. O que se abriu não foi a própria cultura, mas o acesso a ela, na época para ter acesso a cultura eu precisava comprar o objeto. Hoje, eu tenho que comprar o computador, o aparelho de som, há outras estruturas paralelas . Mas, isso não inviabiliza o negócio da indústria, por isso que acho que não é tão subversivo assim. Mas a indústria tem que se reinventar de outra forma, mas nem em sonho inviabiliza seu negócio. É um mercado bilionário…”

“Tem que gente que topa pagar [por arquivos na internet]. A Google, que é muito perspicaz na gestão destas coisas, está laçando uma estrutura de micro pagamentos nos EUA. Essas empresas vão cobrar de você pela velocidade do download e pela segurança. Você pode ter até acesso ao mesmo produto no mercado paralelo, mas sem essas garantias”.

“Quando eu tinha 18, 19 anos eu lia alguma coisa sobre música, um disco ou um cantor, e quando eu queria ouvir, eu tinha que juntar dinheiro ir a uma importadora, esperar três meses para chegar o produto. O acesso a cultura era caro e difícil e hoje, eu leio uma matéria, antes de terminá-la eu já estou ouvindo a música, tocando no meu computador. Isso faz com que a gente tenha acesso a uma pluralidade de experiências culturais muito grande. Essa é a grande novidade quando você barateia o acesso a rede (este acesso não é de graça nem para quem faz pirataria porque se paga a conexão ou a compra de um CD para piratear). O resultado disso é uma experiência mais aberta para a música, para a cultura em geral. Você deixa de ter acesso a conhecer poucas coisas porque elas passam a estar disponíveis em grande quantidade, o tempo todo. O grande problema passa a ser o inverso, ou seja, é você neste contexto enorme é poder selecionar e saber por onde você vai. Os fenômenos que surgem a partir da internet indicam que as pessoas têm caminhado por caminhos que não são mais controlados como eram antes por gravadoras“.

“A característica deste momento é de transição. Não há caminhos definidos, não há formas definidas. Então, você escapa da gravadora, mas é preciso ampliar o número de pessoas que acessam o site, sua música, e de alguma maneira os meios de comunicação convencionais continuam sendo muito fortes para isso. A alternativa que tem se construído são as redes sociais, que são uma versão contemporânea do ‘boca a boca’. [O fato de Paulo Coelho e Radiohead disponibilizarem seu material na internet não pode ser seguido] porque eles vêm de outra plataforma. Eles vêm de gravadora, de editora. A pergunta é a seguinte: suponha que o Paulo Coelho fosse o Paulo Coelho antes de lançar Brida, se ele publicasse seu material pela internet ele estourava do jeito que ele estourou? Provavelmente não. Quer dizer, tem toda uma estrutura de marketing atrás do lançamento, da figura, que ainda é garantia por editores. A mesma coisas vale para o Radiohead. Você tem uma estrutura tradicional que precede essa estrutura alternativa dada hoje”.

A estrutura convencional da música e do cinema ainda é muito lucrativa, então ainda não valeu a pena tirar o pé de dentro dela. Reclamam, choram, mas essa estrutura ainda é muito lucrativa e por isso essas empresas se mantém no negócio convencional, mas com o tempo isso vai mudar”.

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‘Se o ‘Tapa na Pantera’ tivesse passado na TV eu ia responder a ação judicial’, diz cineasta Esmir Filho

28 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Esmir Filho é um dos realizadores de ‘Tapa na Pantera’, vídeo que estourou no YouTube em 2006. O cineasta, formado na FAAP em 2004, já havia feito outros trabalhos, mas foi este curta engraçado que o levou a popularidade (e o vídeo não foi colocado na rede por Esmir). Antes deste vídeo, já tinha recebido prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Kiev, na Ucrânia, e de Huelva, na Espanha, com o curta “Ímpar Par“. Além disso, o também curta “Alguma Coisa Assim” recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2006. No momento, Esmir prepara o lançamento do longa ‘Os Famosos e os Duendes da Morte’ em que trata do que é crescer em um mundo em que o virtual e o real já não têm mais fronteiras definidas. O filme tem estreia prevista para fevereiro. O cineasta mantém uma conta no Twitter e nos contou que a internet foi importante para se tornar conhecido por pessoas fora do circuito de cinema e que a rede entrou na sua vida “sem ser convidada”. Esmir foi nosso décimo entrevistado e conversou conosco pessoalmente na produtora em que trabalha.

Esmir Filho
* foto de divulgação

“Ela [a internet] entrou sem ser convidada e aos poucos virou um meio de contato para mandar email para festivais de cinema, por exemplo, porque antes era carta. O próprio ‘Tapa na Pantera’ me fez olhar para o YouTube, assim como muita gente. Quando o ‘Tapa’ aconteceu, e foi um fenômeno espontâneo cultural, eu fiquei assustado pela forma como ele se disseminou e como ele apresentou o YouTube para o Brasil. Muita gente ficou conhecendo o site por causa do vídeo, eu inclusive. E de novo a internet entrou na minha vida sem ser convidada. E daí eu percebi que a internet é um terreno novo. É muito espontâneo. É uma coisa que a gente nunca fez, porque dentro da TV, do cinema, a gente sempre tentou trazer assuntos que as pessoas gostam por causa do Ibope. Na internet não tem nada disso. Quando eu achava que algo ia fazer sucesso, ninguém olhava e quando eu achava que não ia, bombava por algum motivo. É louco. Você joga e depende muito de quem pega e como vão ver aquilo. É muito incerto”.

“A mídia adora frases, títulos e coisas… Não só isso me ajudou. Mas quando eles souberam do ‘Tapa na Pantera’, eles souberam que o Esmir tinha acabado de ganhar o Festival de Cannes por melhor roteiro e que o Esmir estava com um projeto de longa e que estava fazendo outro curta. Eles iam saber quem era eu. E isso foi legal no ‘Tapa na Pantera’. Não foi porque me lançou, mas porque souberam quem eu era. Se eu tivesse só um vídeo, eu não poderia ser considerado cineasta, mas eu fiz cinema, fiz meus curtas e meu projeto de carreira até chegar no meu longa. Mas tem gente que acha que eu fiz ‘Tapa na Pantera’ e já estou lançando um longa”.

Eu acho que a pirataria não é uma questão, é um fato. Ninguém tem que lutar contra. A internet está aí, ninguém vai fechar a internet ou o YouTube. Não existe isso. Ainda tem muita gente indo no cinema, eu não sei se a bilheteria tem baixado por causa disso, mas a pirataria já é um fato. O que me incomoda muito é projeção digital de baixa qualidade e cinemas de qualidade colocam projeção digital porque é mais barato. Daí sim eu prefiro baixar, para ver numa qualidade daquela, eu prefiro ver em casa. Vão falar que isso é coisa de cineasta chato falando, mas cara, eu vejo amigos meus, leigos, que nem são ligados com cinema, e saem do filme falando que a fotografia estava escura. Eu falo: ‘Deus, o público sabe que é ruim’. Isso me deixa puto. Pirataria é fato, o filme vai ser disponibizado na internet. E não vou ser eu quem vai colocar”.

“Eu quero comunicar, não estou pensando em dinheiro e público, eu tô pensando em tocar pessoas e atingi-las. Sou artista neste aspecto, não quero ganhar dinheiro, para ganhar dinheiro eu faço outras coisas. Não se vive de cinema no Brasil, apesar que eu gostaria que se vivesse. Sabe aqueles filmes que o cara fez com R$ 5 mil? Não se pagou ninguém, isso faz com os profissionais não ganhem, e eles deveriam ganhar e também faz com que as pessoas façam outras coisas para ter fonte de renda, como publicidade que eu faço, principalmente. Queria muito que cinema fosse minha principal fonte de renda e eu não precisasse fazer nada. É isso que é meu ponto. Juro que eu não sei se a pirataria ajuda ou atrapalha nisso tudo, tem uma lista de vantagens e desvantagens”.

“Em ‘2001’, do Kubric, o cara previu muita coisa: o computador, etc. Mas ele não previu o poder descentralizado, porque no filme é aquilo, a centralização. O Kubric não previu a internet e poderia ser aquele mundo, se não houvesse a rede. Ele previu que o computador ia tomar conta do ser humano, mas ele não previu que eu poderia acessar tudo o que eu quisesse e que eu poderia chegar a qualquer informação. Ele achava ainda que o poder estava centralizado numa cúpula, que era como era na época. E faz sentiodo, não é uma crítica. Acho interessante como o mundo prega peças na gente, na nossa cabeça. Se o ‘Tapa na Pantera’ tivesse passado na TV eu ia estar respondendo a ação judicial, o louco é que foi um território tão livre, que ninguém veio me procurar para isso, nem a Maria Alice.Tem gente que defende que o vídeo é apologia às drogas e tem gente que fala que é uma campanha anti-droga. Mas que veículo é tão potente, quanto a TV em outra época, que fez com que eu colocasse uma polêmica, espirituosa, e não gerasse uma aversão, uma censura?”.

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‘Todo cineasta interessante está de olho na internet’, diz Cacá Diegues

23 09 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

Carlos Diegues é cineasta e ajudou a fundar o Cinema Novo na década de 50, no Brasil. Cacá, como é conhecido, filmou com outros diretores o famoso ‘Cinco Vezes Favela’ (1962), que traz diferentes situações passadas nestas comunidades. Atualmente, Cacá coordena o novo ‘Cinco Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos’, que vai trazer histórias criadas e realizadas por moradores de favelas do Rio de Janeiro. Esses jovens cineastas foram selecionados em cursos dados pelo próprio Cacá, Nelson Pereira dos Santos, Fernando Meirelles, Walter Salles e outros. A estreia do filme está prevista para o ano que vem. Carlos Diegues participou da resistência contra à ditadura militar, lançou muitos curtas e mais de 15 longas como ‘Deus é Brasileiro’, ‘Orfeu’, e ‘Tieta do Agreste’. Cacá possui um blog, em que novidades e entrevistas dadas pelo cineasta são colocadas. Ele foi nosso oitavo entrevistado.

Caca Diegues

“Baixar um filme é muito mais complicado do que baixar um livro ou uma música, mas o cinema vai pelo mesmo caminho irreversível. Aliás, já está indo através de iniciativas pioneiras, tanto na indústria (Disney, Warner e outras majors já têm seus serviços de download), assim como nas formas alternativas (como, por exemplo, o Creative Commons)”, disse por email.

“Todo cineasta interessante está de olho na internet. O YouTube, por exemplo, é um ninho de artistas que estão se multiplicando através dele e de outros serviços semelhantes. Um dos cineastas mais interessantes da nova geração, o paulista Esmir Filho, destacou-se e foi descoberto pelo público através de seu curta ‘Tapa na pantera’, postado há uns poucos anos. Hoje ele está no seu segundo longa-metragem, com muito sucesso”.

“A internet fragmentou a globalização. Isso quer dizer que continuamos a nos manifestar em tempo real para o mundo inteiro, mas essas manifestações não são mais espuma de uma mesma onda. Ao contrário do que se pensava na época de McLuhan, isso está destruindo a possibilidade de concentração na mão de uns poucos poderosos. Na economia do cinema, isso é uma novidade real”.

“A pirataria não é uma questão policial, e sim social. Ela é o resultado da maior agilidade, vontade e velocidade do consumo do que da produção. Nós temos que descobrir um modo de adaptar-nos a essa realidade e não continuar insistindo em simplesmente tentar bloqueá-la à força. Nenhuma lei no mundo é capaz de acabar com uma necessidade social”.

“É claro que sim [a cultura está sendo democratizada]. Hoje não se produz mais audiovisual apenas nos países centrais da Europa Ocidental e da América do Norte, como no passado, mas em todas as nações do mundo, de todos os continentes. Mais do que isso, não são apenas as elites culturais ou sociais desses países que o produzem, mas as mais diferentes camadas sociais de cada um deles. Como nas favelas e periferias brasileiras”.

* foto de flickr/deharris

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