‘Os efeitos da web na literatura são insignificantes frente às possibilidades futuras’, diz Sérgio Rodrigues

4 08 2010

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

O jornalista, crítico literário e escritor Sérgio Rodrigues é autor de um ótimo blog sobre literatura, o Todoprosa, que virou até livro: Sobrescritos (Arquipélago Editorial, 2010), lançado este ano. Depois de passar pela revista eletrônica NoMínimo e o portal iG, o blog está hospedado hoje no site da revista Veja. Ali, o autor publica curiosidades etimológicas, críticas, dicas, impressões literárias, notícias sobre o mundo do livro, além de suas próprias criações. Entre outros livros, Rodrigues publicou “Elza, a Garota”, “O Homem que Matou o Escritor” e “As Sementes de Flowerville”. O escritor, que também está no Twitter, foi nosso vigésimo segundo entrevistado:

“A internet não causou uma revolução imediata. O meu trabalho como escritor mudou muito pouco. O meu trabalho como jornalista mudou muito mais. Ela criou uma interatividade muito grande. Ajudou na divulgação do meu nome, cria uma sinergia. Agora, em termos de liguagem, a web não mudou nada ainda. Talvez a longo prazo isso venha a acontecer. Novas formas de se contar histórias podem surgir mas ainda é tudo muito experimental. Os efeitos da internet na literatura são ainda insignificantes frente às possibilidades futuras. Mas há muitas coisas boas que a internet trouxe, como a facilidade de se encontrar livros raros, por exemplo”, começou dizendo Rodrigues, em entrevista por telefone.

E continuou: “Entendo que o livro de papel não vai desaparecer tão cedo, ele vai conviver por muito tempo com o eletrônico. Já a internet é um grande sarau, ela substitui com vantagens a cobertura da mídia tradicional, e isso é muito positivo. Os livros costumam repercutir pouco, vender mal. A internet permite, assim como as livrarias e as bibliotecas, que novos livros sejam descobertos. A universidade mesmo se prende aos clássicos. A internet valorizou a palavra escrita, ainda que haja adaptações. Meu filho escreve muito mais e para mim pouco importa se escreve com abreviações, não vejo nada de ruim nisso.”

“A indústria do livro, acredito, tem estado atenta a todo tipo de novidade. Com a disseminação do livro digital, no entanto, ela vai mudar dramaticamente nos próximos anos”, disse.

“É difícil planejar uma carreira. Isso vai sempre depender de cada pessoa. O que me parece obvio é que ninguém pode prescindir da internet. E isso é bastante natural para os mais jovens, embora o caminho seja, e continue, difícil. É preciso inteligência e criatividade para fazer diferente. Hoje é muito fácil fazer um blog, então isso cria um outro problema, talvez ainda maior, o de ser percebido. Ser percebido talvez seja tão difícil como antes e isso não é a grande panacéia dos escritores. O mais relevante é a discussão em torno do assunto e as possibilidades abertas que são maiores do que jamais foram. O CardosoOnline, por exemplo, foi um fenômeno do inicio da internet. Hoje seria mais difícil. A simples novidade já era assunto, notícia. Hoje muita gente faz isso.”

“(P2P), tecnicamente é pirataria, mas a questão dramática para mim parece ser outra. E é como ganhar dinheiro na era digital? Na música, para muitos artistas, isso se tornou impossível. Agora para um escritor é ainda mais complicado, o músico pode ganhar com shows. Já palestra é para poucos escritores. Mas para mim a uma questão filosófica mesmo, quer dizer a cultura, a palavra escrita perdeu seu valor? Mas daí achar que a pirataria vai acabar é ser ingênuo. Talvez tudo isso, possa ser até positivo ao obrigar as empresas a ter que oferecer mais do que o pirata.”

“Por mais que tente proteger isso, livros, músicas e filmes vão circular livremente e de graça pela internet. Viver de direito autoral, viver de ser escritor, é algo muito difícil. Outras coisas precisam entrar no bolo. Mesmo os maiores vendedores de livro fazem outras coisas. Esse circuito de palestras, eventos, cursos, está em expansão. E é uma opção em franco crescimento.”

“Democratização da cultura? Primeiro é preciso definir essa palavra. Mas o que vejo é uma difusão praticamente universal da informação, a fruição disso depende de uma base educacional que hoje é precária, o que é uma grande estupidez. Mas a ferramenta de divulgação (a internet) é imensa e isso é extremamente positivo”, conclui.

* Essa entrevista foi concedida em outubro de 2009, quando o livro-reportagem estava sendo feito. Devido a problemas de agenda, apenas conseguimos disponibilizá-la agora

Leia Também:
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One response

21 02 2011
Do que NÃO vivem os escritores « Baixa Cultura

[…] Não acreditamos que no Brasil (e quiçá em boa parte do mundo) a situação seja muito diferente da Argentina. Uma das escritoras mais comentadas da “nova geração”, Carol Bensimon, também não acredita, ["Não consigo pensar nem em meia dúzia que podem se dar ao luxo de viver de direito autoral“, diz ela], assim como o escritor e crítico Sérgio Rodrigues ["Viver de direito autoral, viver de ser escritor, é algo muito difícil. Outras coisas precisam entrar no bolo", disse Rodrigues] […]

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