‘Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada’, diz Marcelo Duarte

21 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Marcelo Duarte é jornalista, escritor e autor da famosa série de livros ‘O Guia dos Curiosos’. Duarte já trabalhou em diversos veículos e desde 1999 mantém sua editora, a Panda Books, um blog, entre outras atividades em meios de comunicação. Ele foi nosso décimo oitavo entrevistado.

Marcelo Duarte

*reprodução

“Demos uma pesquisada no mercado e achamos que somos a primeira editora que faz releases eletrônicos e entrevistas com autores. Nós fizemos um canal, dentro do nosso site, com trailers animados dos nossos livros, fazemos entrevistas com nossos autores. Também estamos no Twitter“, disse em entrevista por telefone.

“Hoje, as livrarias virtuais são importantes no país porque há pouquíssimas lojas físicas. É um problema do Brasil que a internet resolveu. Qualquer pessoa pode comprar um livro pela loja virtual”.

“A gente já descobriu autores por internet, já publicamos livros de blogueiros, temos hoje uma facilidade para convidar pessoas para divulgar os livros. Os novos talentos tinham mais dificuldade para encontrar uma editora que têm hoje. Hoje um blog bom, comentado, rapidamente chega aos ouvidos de uma editora. Então, neste ponto acho que foi muito benéfico para os dois lados: se consegue achar gente boa e o cara consegue achar a editora também“.

A primeira grande dificuldade é fazer o primeiro livro. É fazer um trabalho bom, de qualidade para conseguir lançar. Porque daí, se o trabalho é bom mesmo, ele aparece, o autor tem grande possibilidade de fazer carreira. É muita gente acha que tem uma ideia genial ou alguma coisa maravilhosa porque perguntou para o amigo, para o parente, às vezes não tem uma avaliação profissional. Então, quando pega uma editora, uma avaliação profissional, comercial tem gente que fica muito chateado e a gente é muito sincero. Tem que se pensar como negócio, às vezes a gente sabe que o livro é realmente bom, mas comercialmente não tem grande apelo“.

“Muitos que fazem blog dizem: ‘tive tantos acessos, então meu livro vai vender tudo isso’. Não é verdade, às vezes atrapalha. Se a pessoa tem todo o conteúdo à disposição na internet, tem um público cativo, por que as pessoas comprariam para ler as mesmas coisas? A gente tem livro, da Tati Bernardi que é blogueira de sucesso, mas quando fechamos com ela, nós pedimos textos inéditos”.

“Não sei, acho que é uma coisa muito distante ainda [a pirataria atingir os livros] se as pessoas vão ficar baixando livros e lendo na tela. Acho que se esse perigo tiver próximo, vão criar mecanismos para tentar evitá-lo porque isso seria o fim da indústria cultural. Não faz sentido para um escritor fazer um livro, gastar o tempo dele e não ganhar nada com isso. Seria do fim da indústria cultural“.

“Vai ter uma geração que vai se acostumar mais facilmente a esses leitores digitais e vai poder baixar livros para ler naqueles aparelhos, não digo que não. É uma nova forma de instituição, não é o fim da editora. É mais uma forma de distribuição”.

“[a cultura vem sendo democratizada?] Acho que ainda não. Isso é papo para pirata. Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada. Então vai democratizar distribuindo, mas os shows custam R$ 200? Isso não é democratizar, é se apropriar de alguma coisa que não te pertence. Eu acho que é só furto”.

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6 responses

19 11 2009
Democratismo ideológico

““[a cultura vem sendo democratizada?] Acho que ainda não. Isso é papo para pirata. Roubar alguma coisa que não te pertence não é democratizar nada. ”

Acho diferente, a cultura vem sendo democratizada SIM. E está sendo justamente pq está fugindo do controle dos “centros autorais”. Eles podem pensar que é furto, mas estão dizendo isso apenas para se protegerem do que ocorre, pq não aceitam.

Não é furto, e é sim democratismo. Se vc tem acesso facilitado á cultura ela só pode estar sendo democratizada. Se a cultura se mantem amarrada dentro de cercas, é obvio que ela estará sendo elitizada e longe do democratismo.

Esse modo representa o modo “antigo” de pensar as coisas, em que “democracia da cultura” é papo de desordeiros e bandidos. Isso só demonstra q se ele não se auto avaliar, sua editora pode não durar muito, pois estará pensando de “modo velho” em “ambiente novo”, em que a acusação de furto resulta na revolta em pleno deserto do Saara.

Desta entrevistas vc separa os retrógrados aos q realmente têm maior capacidade de lidar com as MUDANÇAS NA SOCIEDADE, mudanças que NÃO SÃO MAIS IMPOSTAS PELO CAPITAL, q perderam parte do controle dessas mudanças, por isso choram e apontam o dedo.

21 12 2009
culturanaeradigital

Olá Democratismo ideológico, obrigado pela visita e pelo comentário. O momento é de mudanças sem dúvida, mas é sempre importante ouvirmos os dois lados. Dê uma olhada nas outras entrevistas também. Acredito que você vai gostar. Abs,

22 11 2009
Felipe

roubo é uma atividade onde algo é subtraído, na distribuição gratuita on-line (veja bem, nada de lucro) nada é subtraído, apenas multiplicado

12 01 2010
Paulo Rená

Quando ele fala que não faz sentido o autor não ganhar nada, ele esquece que nem tudo que se ganha é dinheiro, que nem todo dinheiro precisa vir da venda dos livros e que tem muito autor que mesmo com a indústria cultural a todo vapor não ganha um dinheiro significante.

Ele já ouviu falar em Kindle? Como assim não tem interesse sobre livros digitais? Se não fossem as travas, as pessoas estariam lendo livros nos smartphones. E (se tudo der certo, torço eu) um dia estaremos, sem dificuldades.

Tem uma boa visão de mercado, mas está longe de ter uma boa percepção do futuro ou mesmo de sociedade.

13 01 2010
culturanaeradigital

Olá Paulo,
Obrigado pela visita e por mais um comentário. Gosto da entrevista do Marcelo Duarte especialmente por ele dar um outro lado. Ainda que não concorde com algumas coisas que ele diz, assim como não concordo com coisas ditas por muitos outros entrevistados, este momento é mais de deixar todos darem suas opiniões. Em breve, vamos postar o nosso livro “Quando o poder muda de mãos – A cultura na era digital” por aqui. Acredito que você vai gostar. Enquanto isso, dá uma olha em uma prévia dele (http://www.slideshare.net/brunogalo/quando-o-poder-muda-de-mos-a-cultura-na-era-digital#stats-bottom) e nos diz o que você acha.
Abraços,

10 02 2010
Bruno Stehling

Em primeiro lugar, claro, não confundamos as opiniões do entrevistado com a do blog. O entrevistado diz que não faz sentido criar sem receber por isso. Não é completamente verdade. Quem escreve uma obra de valor artístico, uma obra que, com o tempo, se descobre um clássico ou uma obra-prima, escreve por motivações que vão MUITO além do dinheiro. Grandes clássicos da literatura brasileira, prosa e poesia, foram escritos por artistas que, pelo menos durante boa parte da carreira de autor, tinham outros trabalhos para pagar suas contas, e não deixaram de publicar por isso. Mas o entrevistado acerta em dizer que o mercado não se sustentaria, seria o fim desta indústria nos moldes atuais, e talvez dela como um todo. A arte não morre, não morreria por nada, mas as carreiras profissionais de autor poderia morrer, o que seria uma pena de qualquer forma. Se a pirataria virtual é um tipo de roubo, e talvez esta afirmativa tenha um fundo de verdade, também tem um fundo de verdade dizer que os lucros das empresas sobre os autores é um roubo, ainda que no sentido figurado, e isso vale para a indústria da música, que ele citou. Vocês acham que um show custa R$ 200 por causa da pirataria? Poque só se ganha dinheiro por aí e não mais pela venda de discos? Certamente não. Existem questões como compensação pelas meia-entradas, e acima de tudo, ganância por LUCRO LUCRO LUCRO fácil e rápido. Ou vcs acham que os preços de R$40, R$50 por CD antes da pirataria era justo??? O preço que se cobra por muitas obras literárias no Brasil também é abusivo, e certamente não em favor dos autores, dos escritores. Os e-readers não emplacaram ainda, mas talvez o Ipad e tablets concorrentes mudem essa realidade, inclusive para as gerações menos jovens. É bom lembrar que se a ganância continuar neste novo mundo virtual, se os preços dos e-books não forem justos, a pirataria virá fortemente como no caso da música. A Amazon têm cobrado muitas vezes preços mais caros para e-books do que para brochuras dos mesmos títulos, aproveitando a pequena elite que comprou Kindle como um brinquedo a mais, mas isso vai falhar tristemente com a popularização dos tablets e e-readers, que, acredito, ocorrerá muito proximamente.

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