‘Os efeitos das mudanças na indústria cultural a curto prazo são superestimados e a longo prazo são subestimados’, diz Tiago Dória

15 10 2009

Por @brunogalo e @livia_wachowiak

Tiago Dória é blogueiro e jornalista especializado em assuntos relacionados a tecnologia, cultura e mídia. Desde 2003, mantém um blog, que hoje está hospedado no portal IG. Atualmente, Dória também é integrante do júri do Concurso de Jornalismo da CNN, colunista do Notícias MTV, e pode ser acompanhado pelo Twitter e Vimeo. O jornalista foi nosso décimo sexto entrevistado.

Tiago Dória

“[as mudanças que as indústrias culturais vêm passando são positivas ou negativas?] Depende do ponto de vista. Se você for dono de uma tradicional gravadora, é bem provável que sejam negativas. Se os efeitos serão positivos ou negativos, saberemos somente daqui a 10, 20 anos. Contudo, acredito que o mais importante é ter noção de que os efeitos dessas mudanças a curto prazo são superestimados e a longo prazo são subestimados, sejam eles positivos ou não. Os efeitos a longo prazo dessas mudanças serão bem mais poderosos, pois podem envolver mudanças de percepção em relação a tempo, espaço e comportamento. Vide a energia elétrica. Somente hoje temos noção das mudanças comportamentais que ela provocou. Mudanças a longo prazo que, em sua época, foram subestimadas por pensadores e especialistas”, disse em entrevista por email.

“[qual transformação mais marcante promovida pela era digital na cultura?] Primeira coisa é o barateamento crescente dos custos de produção, armazenamento e processamento dessas mídias. A partir disso vêm diversas transformações. A mais marcante tem sido a chamada era do desmanche, em que os pacotes de conteúdo estão se fragmentando. Um artista não lança mais CDs, mas músicas avulsas, a produção e a própria concepção artística ficam mais atomizadas. Sem contar, o surgimento de novas narrativas, como a transmídia e os newsgames”.

“[analisando o cenário atual, como um artista hoje deve planejar sua carreira]? Acredito que a primeira coisa que ele precisa ter em mente é que está entrando num cenário hipercompetitivo, que já era competitivo, mas se tornou hiper. A digitalização e a posterior distribuição de conteúdo com a internet possibilitaram que mais pessoas publiquem conteúdo e disputem a atenção, o que fez o mercado ficar mais competitivo. Segunda coisa, é aprender a ouvir. Hoje os canais de feedback são bem mais variados e instantâneos. Um artista iniciante, antes de tudo, tem que aprender a ouvir“.

“[como artistas já estabelecidos podem tirar proveito das novas tecnologias? Paulo Coelho e Radiohead são exemplos ou exceções?] O mesmo caso dos novatos. Ter um canal novo de distribuição e uma ferramenta para monitorar a recepção de sua produção. Não acredito que o Radiohead e o Paulo Coelho sejam exceções. Disponibilizar o seu trabalho de graça na web vem se tornando um caminho cada vez mais comum. O trabalho, no caso livros e músicas (gratuitos), servem de isca para vender outros produtos (pagos) do artista, como palestras, shows, merchandising, participação em programas etc. O que tenho como ressalva é em relação ao volume. Artistas menores e menos conhecidos não terão o mesmo volume de downloads de um Radiohead e ou Paulo Coelho. Esses artistas chegaram onde estão apoiados em outro tipo de indústria, mais de massa“.

A atitude de duas pessoas trocarem arquivos na internet não é pirataria, não existe interesse direto econômico. A intenção é trocar conteúdo, conhecimento. Algo que existe desde que o homem é homem. Para mim, pirataria pode ser considerada aquele cara que vende CDs piratas em uma barraca na rua. No primeiro caso, ninguém perde, talvez todos ganhem. No segundo caso, acredito que todos perdem. O problema da pessoa que vende CDs piratas é que o interesse dele não é troca de conhecimento, mas puramente econômico, ganhar dinheiro de forma fácil. Sem contar que junto com a venda de CDs piratas em camelôs vem diversos outros crimes. Até o CD chegar ao camelô, existe toda uma cadeia de corrupção. Enfim, existe uma distância bem grande entre um entusiasta que disponibiliza seus discos favoritos em um blog e um camelô que vende CDs piratas”.

“[o acesso a produtos culturais voltará a ser majoritariamente pago um dia?] Majoritariamente, eu acredito que não. Mas produtos pagos sempre vão sentir, até por que os modelos gratuitos que conhecemos até hoje não dispensam a contrapartida do pago. Por exemplo, você não ganha dinheiro com a venda de CDs, mas ganha com shows, que não deixam de ser um produto cultural”.

“Acredito que o download já seja uma fonte de renda estabelecida para parte da indústria, vide as vendas de música na loja iTunes. Mas é um tipo de fonte que não é capaz de suprir a renda que a venda de discos proporcionava. Hoje a indústria tem que diversificar mais ainda os seus modelos de renda, trabalhar com várias fontes ao mesmo tempo. E ter noção de que ela não vende CDs ou DVDs, mas experiência musical e visual. Acredito que o streaming seja uma alternativa para a indústria, pois ela pode ter mais controle sobre como o seu conteúdo é distribuído. Mas a alternativa mais vantajosa para a indústria combater a “pirataria” ainda é lutar com as mesmas armas, fornecer o conteúdo de graça na rede com uma interface amigável e a mesma ou uma maior facilidade em relação aos ‘sites piratas’ “.

“[acredita que com todas as mudanças provocadas pelo digital estamos de alguma forma vivendo uma ‘democratização’ da cultura?] “Democratização” é uma palavra meio difícil e que dá margens a muitas interpretações. Acredito que temos mais portas abertas. Mas a partir disso, considerar que todas as pessoas vão ter o mesmo espaço e atenção é um pouco romântico e utópico. A democracia pura não funciona, não é à toa que existe uma meritocracia na web e em seus principais expoentes – wikipedia, twitter, blogs etc. Sem contar que não podemos esquecer que o conteúdo é abundante, mas o bom senso e o talento ainda são duas coisas escassas“.

* foto de flickr.com/helenan

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