‘O livro nunca foi produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema’, diz Cardoso

2 10 2009

Por@brunogalo e @livia_wachowiak

André Czarnobai, ou Cardoso, é autor do livro ‘Cavernas & Concubinas’, lançado em 2005 pela DBA Editora. O escritor e jornalista desempenha multifunções: é consultor criativo (ajuda empresas a desenvolverem produtos de comunicação para internet, filmes, TV, revistas), roteirista, produtor musical, co-fundador (com Daniel Galera) do CardosOnline (fanzine que circulou por email entre 1998 e 2001, e que também revelou nomes como Clarah Averbuck e Daniel Pellizzari). Cardoso, que afirmou ter usado a internet em 99% do tempo em “EMPIRISMO FREESTYLE”, pode ser acompanhado em seu site, blog e no Twitter. Ele foi nosso décimo terceiro entrevistado.

Cardoso
*foto de divulgação

A internet, na verdade, serve como um grande POTENCIALIZADOR: encurta distâncias, aumenta a rede (de consumidores, divulgadores e comparsas) e reduz radicalmente o tempo necessário para que as coisas aconteçam. Mesmo assim, prefiro acreditar que, independente da internet, as mesmas coisas acabariam acontecendo na minha vida – mas provavelmente demorariam bem mais para acontecer. Não posso dizer que o uso da web foi algo totalmente intencional porque comecei a usá-la justamente quando ela surgiu comercialmente no Brasil, por volta de 1996-97. Eu não tinha a idéia do que aconteceria – ninguém tinha. Ao longo dos anos, em um ou outro momento, é evidente que fiz um uso mais consciente de algumas de suas ferramentas visando algum objetivo bem específico, mas em geral te confesso que 99% das coisas que fiz foram embebidas do mais puro EMPIRISMO FREESTYLE”, disse em entrevista por email e seguindo seu estilo literário, Cardoso nos respondeu usando Caps Lock, de acordo com sua preferência.

“[As mudanças que o mercado editorial vem passando são] muito mais positivas que negativas! Mais gente lê e mais gente escreve: exatamente dois pré-requisitos fundamentais para que exista um mercado editorial. Dois dados interessantes sobre a Companhia das Letras, uma das principais editoras do país: em 2008 ela bateu seu próprio recorde de vendas, número que já foi superado em incríveis 13% só nesses primeiros 9 meses do ano. Ou seja, contrariando todas as expectativas, o mercado editorial está se fortificando. Quanto ao escritor ter mais liberdade ou poder, em relação especificamente às editoras acredito que isso não acontece. Nesse sentido a relação não mudou praticamente em nada. Quer dizer, editores ainda recebem, avaliam e (na maioria das vezes) recusam originais que chegam às suas mãos encadernados – não via e-mail ou links. Fora isso, a grande verdade é que liberdade o escritor sempre teve. Poder, talvez nunca (ou quase nunca). A literatura nunca foi um hábito de massa em nenhuma cultura O que o escritor de hoje realmente tem de diferente do escritor de 20 ou 30 anos atrás são duas coisas: 1) um número muito maior de veículos para sua obra, sejam blogs, sites literários, revistas, jornais ou editoras independentes; 2) facilidade muito maior de estabelecer e manter uma rede de contatos, tanto entre leitores como entre outros escritores. . Pode parecer pouca coisa, mas é o que faz toda a diferença. O resto é ilusão, afobação ou mau-caratismo”.

Os verdadeiros artistas não planejam suas carreiras. Eles simplesmente fazem aquilo que devem fazer. Um escritor vai criar um blog, abrir uma conta no twitter, imprimir 300 cópias de um livreto numa gráfica expressa, pendurar 50 cartazes nas paradas de uma determinada linha de ônibus. Fazer disso uma carreira não é o trabalho de um artista. A carreira vai sendo construída (ou não) ao longo da vida. A importância do fã, agora, é a mesma de antes. O que mudou aqui não foi a importância, apenas a relação. Hoje, um fã pode facilmente virar amigo do seu ídolo – e isso é muito ducaralho”.

“Troca de arquivos não é pirataria. Pirataria, pra mim, é apropriar-se de algo que não é seu e explorá-lo em busca de LUCRO. Ou seja, se eu baixo um filme que ainda não saiu no cinema, o assisto e até compartilho, não acho que isso seja pirataria. Se eu realmente gostar do filme, isso pode me levar a comprar um DVD com extras ou até mesmo ir ao cinema para vê-lo novamente numa tela maior, com um som mais legal. Mesmo se eu compartilhar esse arquivo numa rede p2p e outras 300 ou 400 pessoas tiverem acesso a ele, não acho que isso seja ruim para a indústria e para o artista. Pelo contrário: amplia a divulgação. Foda é o cara baixar um filme, fazer 500 cópias e vender a R$ 10 por aí”.

“[A cultura tem sido democratizada] sem sombra de dúvida. Mas não só pela natureza da internet em si: acho que essa democratização – ou seja, essa possibilidade de participação efetiva do POPULACHO – vem muito mais de uma política responsável de inclusão digital que qualquer coisa. Isso se traduz na queda dos preços de computadores, instalação de pontos de acesso e proliferação de lan houses, inclusive e principalmente nas periferias brasileiras (só na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, hoje são mais de 400)”.

“O público de literatura é muito diferenciado, e quando compra um livro na verdade adquire um pacote que vai além do conteúdo. Não dá pra comparar a literatura com a música e o cinema. São coisas muito diferentes, vendem produtos muito diferentes e têm públicos muito diferentes. Se na música existem uns poucos puristas que preferem ouvir seus discos de vinil e o cinema conta com uns heróis que fazem questão de freqüentar salas que usam projetores de película, a esmagadora maioria do público da literatura é afeita de todos os pormenores e rituais associados à leitura. Em outras palavras: quem gosta de ler em geral gosta não apenas do CONTEÚDO, mas também da FORMA. O cheiro do livro, a arte da capa, a MANCHA gráfica – e também a possibilidade de sentar embaixo de uma árvore, no assento de um avião ou até mesmo numa privada e apreciar a leitura. Além disso, há a questão do livro nunca ter sido produto de consumo de massa – ao contrário da música ou do cinema. Literatura sempre foi um mercado de nicho – um modelo que tende a se fortalecer nesse cenário fragmentado da era da internet. Em tempo: recentemente o TorrentFreak divulgou a lista dos 10 livros mais compartilhados via redes p2p de janeiro a setembro de 2009 – o único título de ficção era a série TWILIGHT. A série infanto-juvenil sobre vampiros aparecia em sétimo lugar, e isso nem de longe abalou suas vendas em todo o mundo – na casa dos MILHÕES. Resumindo: escritores não tem nada a temer”.

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